Yogi Svātmārāma — séc. XV
Haṭha Yoga Pradīpikā
हठयोगप्रदीपिका
4 capítulos • 290 versos
Capítulo 1: Os Āsanas (Posturas Espirituais e Físicas)
Tradução Integral do Texto Raiz (Mūla) — Sem Comentários
#### Introdução, Propósito e Linhagem dos Mestres
Verso 1.1
Saudações a Ti, ó Ādi Nātha (o Senhor Primal, Shiva), que ensinaste a ciência do Haṭha Yoga. Ela brilha gloriosamente como uma escada para aquele que deseja ascender ao sublime e elevado Rāja Yoga.
Verso 1.2
Tendo reverenciado o sagrado Guru e Senhor, o iogue Svātmārāma expõe a ciência do Haṭha Yoga com o único e exclusivo propósito de alcançar o Rāja Yoga.
Verso 1.3
Para o benefício daqueles que vagam confusos na escuridão de inúmeras opiniões e teorias divergentes, sem conhecer o caminho direto para o Rāja Yoga, o compassivo Svātmārāma oferece esta Haṭha Pradīpikā.
Verso 1.4
A ciência do Haṭha é verdadeiramente conhecida por grandes mestres como Matsyendra, Goraksha e seus discípulos. O iogue Svātmārāma a compreende e a conhece por meio da graça e da benevolência deles.
Verso 1.5
Śrī Ādinātha, Matsyendra, Śābara, Ānandabhairava, Caurāṅgī, Mīna, Gorakṣa, Virūpākṣa, Bileśaya;
Verso 1.6
Manthāna, Bhairava, Siddhi, Buddha, Kanthāḍi, Koraṇṭaka, Surānanda, Siddhipāda, Carpaṭi;
Verso 1.7
Kānerī, Pūjyapāda, Nityanātha, Nirañjana, Kapālī, Bindunātha, Kākacaṇḍīśvara;
Verso 1.8
Allāma, Prabhudeva, Ghoḍā, Colī, Tiṇṭiṇi, Bhānukī, Nāradeva, Khaṇḍa, Kāpālika;
Verso 1.9
Estes e outros grandes Siddhas (Mestres Perfeitos), tendo conquistado o bastão do Tempo (a morte) através do poder do Haṭha Yoga, movem-se livremente por todo o universo.
#### O Abrigo do Praticante e as Condições do Eremitério (Maṭha)
Verso 1.10
Como um refúgio seguro contra o calor ardente de todos os sofrimentos (físicos, mentais e espirituais), o Haṭha Yoga é a morada ideal; para aqueles dedicados à prática constante de qualquer forma de Yoga, o Haṭha serve como base de sustentação, tal como a Tartaruga Cósmica sustenta o mundo.
Verso 1.11
O iogue que deseja obter a perfeição deve manter a ciência do Haṭha em absoluto segredo. Guardada em segredo, ela mantém o seu poder e eficácia; divulgada indiscriminadamente, ela se torna impotente.
Verso 1.12
O praticante de Haṭha Yoga deve habitar sozinho em um eremitério (maṭhikā) isolado, situado em um reino bem governado, pacífico, virtuoso, próspero e livre de perturbações, onde a alimentação seja facilmente obtida. O eremitério deve ser cercado por muros e estar a uma distância de quatro côvados (cerca de dois metros) de qualquer rocha, fogo ou água.
Verso 1.13
As características do eremitério (maṭha) ideal são: uma porta pequena, sem frestas, janelas, buracos ou cavidades; nem muito alto, nem muito baixo, nem muito extenso; limpo, bem rebocado com esterco fresco de vaca, livre de poeira e de qualquer tipo de inseto ou verme. No exterior, deve haver um pequeno pavilhão (maṇḍapa), uma plataforma para rituais (vedī), um poço de água pura, e todo o perímetro deve ser protegido por um muro. Tais são os sinais descritos pelos Siddhas que alcançaram a perfeição no Haṭha.
Verso 1.14
Permanecendo nesse eremitério, livre de todas as ansiedades e preocupações mentais, o praticante deve seguir estritamente o caminho instruído pelo seu Guru e dedicar-se continuamente à prática exclusiva do Yoga.
#### Obstáculos e Facilitadores do Sucesso no Yoga
Verso 1.15
O Yoga é destruído por seis fatores: alimentação excessiva (atyāhāra), esforço físico exaustivo (prayāsa), tagarelice ou falar em demasia (prajalpa), adesão cega ou fanática a regras e rituais externos (niyamāgraha), convívio com pessoas mundanas e contrárias ao Yoga (janasaṅga), e a instabilidade ou oscilação mental (laulya).
Verso 1.16
O Yoga é coroado de sucesso imediato por seis virtudes: o entusiasmo e energia firme (utsāha), a audácia ou coragem inicial para agir (sāhasa), a perseverança paciente (dhairya), o conhecimento correto e discernimento da verdade (tattvajñāna), a determinação e fé inabalável (niścaya), e o abandono definitivo da companhia de pessoas mundanas (janasaṅgaparityaga).
#### A Ciência dos Āsanas (Posturas Corporais)
Verso 1.17
Sendo os Āsanas a primeira parte constituinte do Haṭha Yoga, eles são descritos inicialmente. A prática dos Āsanas confere ao iogue estabilidade mental e física (sthairya), saúde e ausência de doenças (ārogya), e leveza em todos os membros do corpo (aṅgalāghavam).
Verso 1.18
Eu passarei a descrever alguns dos principais Āsanas que foram aceitos e validados tanto por sábios contemplativos como Vasiṣṭha quanto por iogues práticos como Matsyendra.
Verso 1.19 — Svastikāsana
Colocando ambas as plantas dos pés firmemente entre as coxas e os joelhos opostos, mantendo o corpo perfeitamente ereto e assentado com estabilidade; a isso os mestres chamam de Svastikāsana.
Verso 1.20 — Gomukhāsana
Colocando o calcanhar direito ao lado esquerdo das nádegas e, de maneira semelhante, o calcanhar esquerdo ao lado direito, as pernas cruzadas assemelham-se à face de uma vaca. Este é o Gomukhāsana.
Verso 1.21 — Vīrāsana
Colocando firmemente um pé sobre a coxa oposta e o outro pé sob a outra coxa, o iogue assume a postura heróica. Este é o Vīrāsana.
Verso 1.22 — Kūrmāsana
Pressionando firmemente o ânus com os dois calcanhares cruzados em sentidos inversos e sentando-se com extrema atenção e equilíbrio. Os conhecedores do Yoga definem este como o Kūrmāsana.
Verso 1.23 — Kukkuṭāsana
Adotando a postura de lótus (Padmāsana), o iogue insere as mãos e os braços no espaço entre as coxas e as panturrilhas, apoiando as palmas firmemente no chão e elevando todo o corpo no ar. Esta postura aérea é o Kukkuṭāsana.
Verso 1.24 — Uttānakūrmāsana
Permanecendo firmemente na postura do galo (Kukkuṭāsana), o iogue enlaça o seu pescoço com as duas mãos e deita-se de costas no chão, estendido como uma tartaruga voltada para cima. Este é o Uttānakūrmāsana.
Verso 1.25 — Dhanurāsana
Segurando os dedões dos pés com as respectivas mãos e puxando-os em direção às orelhas, tensionando o corpo como um arco totalmente flexionado. Este é o Dhanurāsana.
Verso 1.26 — Matsyendrāsana
Colocando o calcanhar direito na raiz da coxa esquerda, cruza-se o pé esquerdo por fora do joelho direito. Segurando o dedão do pé esquerdo com a mão direita e girando completamente o tronco para o lado oposto, mantém-se o corpo rotacionado. Esta é a postura ensinada pelo glorioso mestre Matsyendra nātha, chamada Matsyendrāsana.
Verso 1.27
A prática constante do Matsyendrapīṭha estimula fortemente o fogo gástrico (jaṭharadīptim), funciona como uma arma terrível para destruir os males crônicos do corpo, desperta a energia Kundalini (kuṇḍalinīprabodha) e confere estabilidade ao néctar lunar na cabeça.
Verso 1.28 — Paścimottānāsana (Paścimatāna)
Estendendo as duas pernas no chão, retas como bastões, segura-se firmemente os dedões dos pés com as mãos. Repousando a testa sobre os joelhos, permanece-se imóvel nesta posição. Este é o Paścimatānāsana.
Verso 1.29
O Paścimottānāsana é o mais excelente entre os Āsanas; ele direciona o sopro vital (prāṇa) ao longo do canal dorsal (a corrente da suṣumṇā), acende intensamente o fogo digestivo, torna o abdômen delgado e confere saúde perfeita a todos os homens.
Verso 1.30 — Mayūrāsana
Apoiando ambas as palmas das mãos firmemente no chão e sustentando os lados do umbigo sobre os respectivos cotovelos, eleva-se o corpo inteiro no ar, mantendo-o reto e horizontal como um bastão rígido. Os iogues chamam esta postura de Mayūrāsana.
Verso 1.31
O Mayūrāsana cura rapidamente todas as doenças abdominais, como tumores, hidropisia e distúrbios do baço; neutraliza os desequilíbrios causados pelo excesso de bile, fleuma e vento; digere completamente qualquer tipo de alimento nocivo ou consumido em excesso, reduzindo-o a cinzas, e tem o poder de digerir até mesmo os venenos mais terríveis (kālakūṭam).
Verso 1.32 — Śavāsana
Deitar-se de costas no chão, totalmente estendido como um cadáver, é chamado de Śavāsana. Esta postura elimina completamente a fadiga causada pelas outras práticas e concede repouso profundo e paz à mente (cittaviśrāntikārakam).
#### Os Quatro Āsanas Principais Declarados por Shiva
Verso 1.33
Oitenta e quatro posturas foram ensinadas e descritas pelo Senhor Shiva. Destas, extraindo a essência mais pura e eficaz, passarei a expor as quatro posturas fundamentais.
Verso 1.34
Estas quatro são denominadas: Siddhāsana, Padmāsana, Siṁhāsana e Bhadrāsana. Dentre elas, a postura de Siddhāsana* é a mais confortável, excelente e deve ser praticada sempre.
Verso 1.35 — Siddhāsana
Pressionando firmemente a região do períneo (yonisthāna) com a base do calcanhar esquerdo, coloca-se o calcanhar direito exatamente sobre o órgão genital. Mantendo o queixo pressionado firmemente contra o peito (jālandharabandha), o corpo imóvel, os sentidos controlados, e fixando o olhar firmemente no espaço entre as sobrancelhas (bhrūvorantaram); esta postura, que abre de forma forçada as portas da libertação (mokṣakapātabhedajanakam), é chamada de Siddhāsana.
Verso 1.36
De acordo com a opinião de outros iogues, coloca-se o calcanhar esquerdo acima do órgão genital e o calcanhar direito logo acima deste, sobrepondo os dois tornozelos. Esta é outra forma de executar o Siddhāsana.
Verso 1.37
Esta mesma postura é chamada por alguns de Siddhāsana, por outros de Vajrāsana; alguns a denominam Muktāsana, e outros a conhecem como Guptāsana.
Verso 1.38
Assim como a moderação alimentar é o mais importante entre os Yamas, e a não violência (ahiṁsā) é a principal virtude entre os Niyamas, da mesma forma, os Siddhas sabem que o Siddhāsana é o principal e mais eficaz entre todos os Āsanas.
Verso 1.39
Dentre as oitenta e quatro posturas, deve-se praticar constantemente apenas o Siddhāsana, pois ele realiza a purificação completa de todas as 72.000 correntes energéticas (nāḍīs) do corpo humano.
Verso 1.40
O iogue que medita sobre o seu próprio Ser, que consome alimentos moderados (mitāhārī) e pratica ininterruptamente o Siddhāsana durante o período de doze anos, alcança a perfeição final e a realização do Yoga.
Verso 1.41
Quando o Siddhāsana é plenamente dominado, o sopro vital é retido sem effort e com segurança através do kevala kumbhaka; que necessidade há de praticar inúmeras outras posturas complexas?
Verso 1.42
Pelo poder desta única postura, o estado de quietude absoluta (unmanī kalā) surge espontaneamente e sem fadiga; os três bloqueios energéticos (bandhas) ocorrem naturalmente, sem qualquer aferro por parte do praticante.
Verso 1.43
Não existe Āsana igual ao Siddhāsana, não há retenção (kumbhaka) comparável ao kevala, não há atitude (mudrā) como a khecarī, e não há dissolução mental (laya) superior à absorção no som místico interno (nāda).
Verso 1.44 — Padmāsana
Colocando o pé direito sobre a coxa esquerda e o pé esquerdo sobre a coxa direita de forma cruzada, cruza-se firmemente os braços por trás das costas para segurar o dedão do pé direito com a mão direita e o dedão do pé esquerdo com a mão esquerda. Repousando o queixo contra o peito e fixando o olhar de forma contínua na ponta do nariz; esta postura, destruidora de todas as doenças e aflições dos praticantes, é chamada de Padmāsana.
Verso 1.45
Como outra variante: colocando cuidadosamente os dois pés voltados para cima sobre as coxas opostas, e posicionando as mãos abertas voltadas para cima no espaço entre as coxas, no centro do corpo, fixa-se o olhar na ponta do nariz;
Verso 1.46
Mantendo a língua pressionada contra a raiz dos dentes incisivos superiores, elevando o queixo contra o peito e contraindo suavemente o abdômen para puxar o ar vital (apāṇa) lentamente para cima.
Verso 1.47
Este é o Padmāsana, o qual não pode ser alcançado por qualquer homem comum, mas apenas pelos sábios dotados de intelecto aguçado (dhīmatā). Praticado na terra, ele purifica e destrói todas as enfermidades físicas de modo absoluto.
Verso 1.48
Mantendo as palmas das mãos unidas ou sobrepostas no colo, adotando firmemente o Padmāsana, pressionando o queixo contra o peito e meditando sobre a Realidade Suprema (Brahman) na mente; puxando repetidamente o ar inferior (apāṇa) para cima e direcionando o ar superior (prāṇa) para baixo através da contração, o homem atinge o despertar incomparável da energia latente (kuṇḍalinī) por meio desse poder.
Verso 1.49
O iogue que, estabelecido estável no Padmāsana, retém o ar vital que entra pelos canais das narinas e o direciona com firmeza através do canal central da suṣumṇā, é um ser verdadeiramente libertado. Disso não há qualquer dúvida.
Verso 1.50 — Siṁhāsana
Colocando os dois calcanhares sob o escroto, de forma cruzada nas laterais do períneo: o calcanhar esquerdo posicionado no lado direito e o calcanhar direito no lado esquerdo do períneo;
Verso 1.51
Apoiando acessivelmente as palmas das mãos sobre os joelhos com os dedos amplamente estendidos, abrindo a boca e projetando a língua para fora, fixando o olhar concentrado na ponta do nariz com a mente perfeitamente atenta;
Verso 1.52
Este é o Siṁhāsana, reverenciado e praticado com grande devoção pelos maiores iogues. Esta postura excelente facilita a união e aplicação simultânea dos três bloqueios energéticos (bandhas).
Verso 1.53 — Bhadrāsana (Goraṣāsana)
Colocando ambos os calcanhares cruzados sob o períneo, o calcanhar esquerdo tocando o lado esquerdo e o calcanhar direito tocando o lado direito da costura perineal;
Verso 1.54
Segurando firmemente as laterais dos pés com as duas mãos e mantendo-os totalmente imóveis e estáveis junto ao corpo. Esta postura, que destrói todas as variedades de doenças e males, é o Bhadrāsana.
Verso 1.55
Os mestres perfeitos (siddhayoginaḥ) chamam esta postura também de Gorakṣāsana. Através da prática constante destes Āsanas, o iogue elimina toda a fadiga corporal e purifica o seu sistema nervoso.
Verso 1.56
O praticante deve treinar diligentemente a purificação das nāḍīs, as mudrās e as ações respiratórias. Posturas, retenções respiratórias (kumbhakas) variadas e as mudrās devem ser executadas até que os frutos do Rāja Yoga sejam plenamente alcançados.
#### Regras de Conduta e Moderação Alimentar (Mitāhāra)
Verso 1.57
Aquele que mantém o celibato (brahmacārī), que consome alimentos puros e moderados (mitāhārī), que renuncia aos apegos do mundo e dedica-se inteiramente ao Yoga, alcança a perfeição e o sucesso pleno após o período de um ano. Disso não há necessidade de hesitação ou dúvida.
Verso 1.58
Alimentação moderada (mitāhāra) é definida como o consumo de comida pura, untuosa e de sabor doce, preenchendo apenas metade do estômago com alimentos sólidos, um quarto com líquidos, e deixando o último quarto inteiramente livre para o movimento do ar, sendo o alimento consumido como uma oferenda sagrada de amor ao Senhor Shiva.
Verso 1.59 — Alimentos Inadequados (Apathya)
Alimentos de sabor excessivamente amargo, azedo, picante, salgado ou quente; vegetais verdes folhosos ácidos, mostarda, bebidas alcoólicas, peixe, carne de animais (como cabra e porco), coalhada, soro de leite, leguminosas pesadas (como o grão-de-bico), bolo de gergelim, assafétida e alho são declarados prejudiciais e inadequados para o iogue.
Verso 1.60
Devem ser evitados alimentos cozidos que foram reaquecidos, alimentos excessivamente secos e desprovidos de gordura natural, comida com excesso de sal ou acidez, vegetais de digestão difícil e misturas culinárias prejudiciais. Tudo isso deve ser rejeitado.
Verso 1.61 — Comportamentos a Evitar
O praticante deve evitar o hábito de sentar-se próximo ao fogo para aquecer-se, o envolvimento sexual com mulheres, longas viagens a pé, banhos em águas frias nas primeiras horas da manhã, jejuns prolongados que debilitam o corpo e quaisquer atividades físicas exaustivas que causem dor e sofrimento ao organismo.
Verso 1.62 — Alimentos Adequados (Pathya)
Trigo de boa qualidade, arroz excelente, cevada, variedades benéficas de arroz de colheita rápida, leite puro, manteiga clarificada (ghee), açúcar mascavo, manteiga fresca, açúcar cristal macio, honey, gengibre seco, pepino selvagem (paṭola), as cinco folhas verdes medicinais, feijão-da-índia (mudga) e água pura e cristalina de fontes naturais são alimentos altamente benéficos para o iogue supremo.
Verso 1.63
O iogue deve anunciar alimentos altamente nutritivos, doces, untuosos e suaves, que sejam derivados do leite de vaca, que nutram adequadamente os elementos constituintes do corpo (dhātus), que sejam agradáveis à mente e adequados às exigências da prática espiritual, evitando o consumo de farinhas secas ou grãos torrados de difícil digestão.
#### A Importância Suprema da Prática Direta (Kriyā)
Verso 1.64
Seja ele jovem, velho, extremamente idoso, ou até mesmo alguém doente, debilitado ou fraco; qualquer pessoa atinge a perfeição e o sucesso em todos os ramos do Yoga si praticar com dedicação contínua e sem preguiça ou letargia (atandritaḥ).
Verso 1.65
A perfeição e o sucesso no Yoga vêm unicamente da prática real e contínua (kriyā). Como poderia alguém alcançar o sucesso sem a prática direta? O sucesso jamais é gerado ou obtido através do mero estudo ou leitura dos livros sagrados.
Verso 1.66
O sucesso no Yoga não é alcançado pelo uso de roupas ou vestes tradicionais de eremita, nem é obtido através de belos discursos ou conversas intelectuais sobre o Yoga. A prática e a aplicação prática são a única e verdadeira causa do sucesso. Esta é uma verdade absoluta e livre de qualquer dúvida.
Verso 1.67
As posturas corporais (pīṭhāni), as diversas retenções respiratórias (kumbhakas), e as excelentes e divinas mudrās devem ser praticadas de maneira sistemática e contínua no Haṭha Yoga até que o fruto supremo do Rāja Yoga seja perfeitamente estabelecido.
Aqui termina o Primeiro Capítulo da Haṭha Yoga Pradīpikā de Yogi Svātmārāma, intitulado 'A Descrição dos Āsanas'.
Capítulo 2: Prāṇāyāma e Ṣaṭkarmas (O Controle da Energia e a Purificação)
Tradução Integral do Texto Raiz (Mūla) — Sem Comentários
#### A Conexão entre o Sopro (Prāṇa) e a Mente (Citta)
Verso 2.1
Estando firmemente estabelecido nos Āsanas, o iogue autocontrolado, consumindo alimentos benéficos e moderados (hita-mitāśanaḥ), deve praticar o Prāṇāyāma de acordo com as instruções transmitidas por seu Guru.
Verso 2.2
Quando o sopro (vāyu) se move, a mente (citta) também se move. Quando o sopro torna-se imóvel e cessa o seu movimento, a mente também se estabiliza em absoluta imobilidade. Por meio dessa imobilidade, o iogue alcança o estado de fixidez e permanência (sthāṇutvam); por conseguinte, o sopro deve ser controlado e retido.
Verso 2.3
Enquanto o ar vital permanece habitando o corpo, isso é chamado de vida. A saída do ar vital constitui a morte. Portanto, é fundamental realizar a retenção e o controle do sopro (vāyu).
#### A Purificação das Correntes Energéticas (Nāḍī-Śodhana)
Verso 2.4
Se as correntes energéticas (nāḍīs) estiverem obstruídas e repletas de impurezas (mala), o sopro vital não conseguirá penetrar nem circular ao longo do canal central (suṣumṇā).
Verso 2.5
Como poderia haver sucesso (siddhi) no Prāṇāyāma se as nāḍīs não estiverem limpas? Portanto, somente quando todas as correntes energéticas estiverem perfeitamente purificadas é que o iogue deve iniciar a prática do controle respiratório.
Verso 2.6
Adotando firmemente a postura de lótus (Padmāsana), o iogue deve inspirar o ar vital através da narina esquerda (o canal lunar, iḍā). Retendo o sopro de acordo com a sua capacidade (kumbhaka), deve em seguida expirar lentamente através da narina direita (o canal solar, piṅgalā).
Verso 2.7
Em seguida, inspirando o ar profundamente através da narina direita (piṅgalā), deve realizar a retenção estável do sopro e, posteriormente, expirar de modo suave e controlado através da narina esquerda (iḍā).
Verso 2.8
Aquele que pratica com disciplina, inspirando pela narina correspondente à Lua, retendo e expirando pela outra, e invertendo o processo ao inspirar pelo canal do Sol e expelir pela narina oposta, purifica completamente o seu sistema de nāḍīs em um período de três meses, se realizado de forma constante.
Verso 2.9
A prática do controle respiratório deve ser realizada quatro vezes ao dia: nas primeiras horas da manhã (alvorada), ao meio-dia, ao entardecer (crepúsculo) e à meia-noite, aumentando gradualmente o número de retenções até atingir o limite de oitenta kumbhakas por sessão.
Verso 2.10
No estágio inicial e inferior da prática (adhama), ocorre uma intensa transpiração por todo o corpo; no estágio intermediário (madhyama), nota-se um tremor perceptível ao longo da coluna vertebral; no estágio superior e avançado (uttama), o prana ascende ao topo e o corpo eleva-se ou experimenta extrema leveza. Portanto, o sopro deve ser domado com firmeza.
Verso 2.11
O suor gerado pelo esforço da prática do Yoga deve ser friccionado e massageado de volta na pele do próprio corpo. Isso confere firmeza, robustez e extrema leveza a todos os membros corporais.
Verso 2.12
No início do aprendizado prático, o consumo de leite e de manteiga clarificada (ghee) é altamente recomendado. Quando a prática torna-se firme e perfeitamente estabelecida, tal restrição alimentar rígida deixa de ser obrigatória.
Verso 2.13
Assim como um leão, um elefante ou um tigre selvagem são domados de forma lenta e gradual, da mesma maneira o sopro vital deve ser controlado com extrema paciência. Caso contrário, se manipulado de forma abrupta ou incorreta, o prana pode destruir o próprio praticante.
Verso 2.14
Através da execução correta do Prāṇāyāma, ocorre a erradicação absoluta de todas as enfermidades físicas. Por outro lado, a prática negligente ou errônea dá origem ao surgimento de diversas doenças.
Verso 2.15
Soluços, asma, tosse crônica, dores craniocraciais, otites, dores oculares e uma grande variedade de distúrbios orgânicos surgem como consequência direta do manejo perturbado ou incorreto do ar vital.
Verso 2.16
O iogue deve inspirar o ar com suavidade e lentidão, expirar de forma igualmente controlada e realizar a retenção (kumbhaka) com perfeita estabilidade mental. Somente através deste método equilibrado obtém-se o sucesso pleno e a perfeição (siddhi).
Verso 2.17
Quando as correntes energéticas (nāḍīs) tornam-se completamente limpas e desobstruídas, surgem sinais externos evidentes no corpo do iogue: magreza harmoniosa, uma compleição física brilhante e radiante, e a manifestação espontânea do som místico interno (nāda).
Verso 2.18
A capacidade de reter o sopro à vontade, o acendimento visível do fogo digestivo interno, a audição clara do som sutil interno e o desfrute de uma saúde perfeita são os sinais indiscutíveis de que as nāḍīs foram purificadas através do Prāṇāyāma.
#### As Seis Práticas de Purificação (Ṣaṭkarmas)
Verso 2.19
O iogue que apresenta excesso de gordura corporal ou acúmulo desequilibrado de fleuma e mucosidade deve praticar inicialmente as seis ações de purificação (ṣaṭkarmas) antes de iniciar o controle respiratório. Aquele em que os três humores vitais (doṣas — vento, bile e fleuma) encontram-se em perfeito equilíbrio não necessita executá-las de forma obrigatória.
Verso 2.20
As seis ações de purificação do corpo são tradicionalmente denominadas: Dhauti, Basti, Neti, Trāṭaka, Nauli e Kapālabhāti.
Verso 2.21
Estas seis técnicas corporais, que realizam a limpeza profunda do organismo, devem ser mantidas em absoluto segredo pelos iogues, pois elas conferem maravilhosas capacidades e são altamente valorizadas pelos grandes mestres perfeitos.
Verso 2.22 — Dhauti (Limpeza Estomacal)
O iogue deve engolir lentamente uma tira de pano limpo e úmido, com quatro dedos de largura e quinze palmos de comprimento (cerca de três metros), seguindo estritamente as instruções do seu mestre. Em seguida, deve puxá-la e removê-la com suavidade do estômago. Esta ação é conhecida como Dhauti.
Verso 2.23
Tosse crônica, asma, distúrbios do baço, lepra e vinte variedades de doenças decorrentes do excesso de fleuma (kapha) são eliminadas de forma incontestável através do poder e da prática regular do Dhautikarma.
Verso 2.24 — Basti (Limpeza do Cólon)
Sentado em um recipiente de água que cubra até a altura do umbigo, adotando a postura de Utkaṭāsana (agachado com os calcanhares unidos), o iogue introduz um tubo fino no ânus e realiza a contração do esfíncter anal (ākuñcana) para aspirar a água para o interior dos intestinos, expelindo-a em seguida. Esta ação é denominada Basti.
Verso 2.25
Distúrbios das glândulas abdominais, hidropisia, esplenomegalia e todas as doenças originadas pelo desequilíbrio dos humores do vento (vāta), da bile (pitta) e da fleuma (kapha) são curadas através do Bastikarma.
Verso 2.26
Através da prática correta do Basti, os tecidos e fluidos constituintes do corpo (dhātus), os sentidos e a mente tornam-se limpos e luminosos; o fogo digestivo aumenta de intensidade e todas as impurezas orgânicas são completamente erradicadas.
Verso 2.27 — Neti (Limpeza Nasal)
Insere-se um cordão lubrificado e liso, medindo cerca de um palmo de comprimento, através de uma das narinas, fazendo-o passar pela garganta até que sua extremidade saia pela boca, puxando-o então pelas duas pontas. Os Siddhas chamam esta ação de Neti.
Verso 2.28
A prática do Neti limpa a região craniana, confere uma visão extremamente nítida e destrói rapidamente todas as doenças que atacam as estruturas corporais situadas acima da linha das clavículas.
Verso 2.29 — Trāṭaka (Purificação Ocular)
Olhar fixamente e sem piscar para um objeto minúsculo com total concentração mental, até que as lágrimas comecem a brotar dos olhos de forma abundante. Aos olhos dos grandes mestres, esta ação é descrita como Trāṭaka.
Verso 2.30
O Trāṭaka elimina todas as aflições e enfermidades oculares, remove a letargia e a preguiça mental, e atua como uma chave secreta para guardar e proteger o tesouro do sucesso no Yoga.
Verso 2.31 — Nauli (Isolamento Abdominal)
Inclinando levemente o tronco para a frente, o iogue deve girar os músculos abdominais com velocidade e vigor, movendo-os da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, mantendo os ombros fixos. Esta ação é chamada de Nauli pelos Siddhas.
Verso 2.32
O Nauli é a coroa de todas as práticas de purificação do Haṭha Yoga; ele estimula intensamente o fogo digestivo lento, remove a constipação, harmoniza a digestão e elimina de forma absoluta todas as desordens dos humores corporais.
Verso 2.33 — Kapālabhāti (Limpeza Craniana)
Realizar expirações e inspirações rápidas, vigorosas e sucessivas, assemelhando-se ao movimento contínuo do fole de um ferreiro. Esta técnica de sopro é conhecida como Kapālabhāti, a limpadora do crânio.
Verso 2.34
A prática do Kapālabhāti destrói de forma rápida e eficaz todas as desordens e congestões decorrentes do excesso de fleuma (kapha).
Verso 2.35
Tendo purificado o corpo de todas as impurezas através do conjunto das seis ações (ṣaṭkarmas), o iogue fica livre da gordura e da viscosidade excessivas, preparando-se perfeitamente para o treinamento do Prāṇāyāma.
Verso 2.36 — Gaja-Karaṇī
Aspirando a água pura até preencher completamente o estômago e, em seguida, expelindo-a forçadamente para cima através da garganta por meio da contração muscular abdominal, de forma idêntica ao movimento de uma fêmea de elefante. Esta técnica, conhecida na linhagem como Gaja-Karaṇī, confere controle total sobre os canais digestivos superiores aos conhecedores do Haṭha.
#### A Importância Suprema do Kumbhaka
Verso 2.37
Até mesmo os deuses mais elevados, como Brahmā e os sábios imortais, dedicaram-se constantemente à prática rigorosa do Prāṇāyāma devido ao profundo medo da morte que os assolava. Portanto, o praticante humano deve aplicar-se ao controle do sopro com máxima dedicação.
Verso 2.38
Enquanto o sopro for mantido perfeitamente retido e controlado no interior do corpo, a mente permanecerá livre de flutuações e o olhar fixará o espaço sem desvios. Sob tais condições, como poderia o Tempo (a morte) aproximar-se do iogue?
Verso 2.39
Quando o sistema de retenção respiratória através dos kumbhakas é executado de forma correta e sistemática, as correntes energéticas tornam-se puras, o canal central da suṣumṇā abre-se e o prana penetra em seu interior sem qualquer impedimento.
#### Os Oito Tipos de Retenção Respiratória (Aṣṭa-Kumbhakas)
Verso 2.40
Quando o prana ingressa no canal central (suṣumṇā), a mente torna-se perfeitamente calma e imersa. Esta quietude mental absoluta é chamada de estado de Unmanī.
Verso 4.41
Para alcançar esse estado sublime, os iogues realizam diferentes métodos de retenção. Passarei a descrever detalhadamente as oito variedades de Kumbhakas.
Verso 2.42
As oito retenções fundamentais são: Sūryabhedana, Ujjāyī, Sītkārī, Śītalī, Bhastrikā, Bhrāmarī, Mūrcchā e Plāvinī.
Verso 2.43
Ao final de cada inspiração (pūraka), o iogue deve aplicar com firmeza o bloqueio da garganta (Jālandharabandha). Ao término da retenção (kumbhaka) e logo no início da expiração (recaka), deve aplicar o bloqueio do períneo (Mūlabandha).
Verso 2.44
Contraindo a garganta através do Jālandhara e puxando simultaneamente o períneo para cima através do Mūlabandha, o prana flui diretamente para o canal dorsal médio da suṣumṇā.
Verso 2.45 — Sūryabhedana Kumbhaka
O iogue senta-se confortavelmente em uma postura firme. Inspirando o ar de forma lenta, contínua e silenciosa através da narina direito (o canal solar).
Verso 2.46
Em seguida, deve reter o sopro com máxima firmeza até que sinta a energia pressionar as pontas dos cabelos e as unhas dos dedos. Posteriormente, deve expelir o ar muito lentamente através da narina esquerda (o canal lunar).
Verso 2.47
O Sūryabhedana deve ser praticado repetidas vezes; ele limpa perfeitamente a região frontal do crânio, elimina os males causados pelo excesso de vento (vāta) e extermina de forma absoluta os vermes e parasitas intestinais.
Verso 2.48 — Ujjāyī Kumbhaka
Fechando a boca parcialmente, o iogue inspira o ar através de ambas as narinas de modo que o fluxo produza um som uniforme e perceptível ao tocar a região da laringe até o peito.
Verso 2.49
Realizando a retenção estável do ar de acordo com as suas capacidades individuais, deve em seguida expirar o sopro de maneira lenta e controlada através da narina esquerda (iḍā).
Verso 2.50
O Ujjāyī elimina a congestão de fleuma na garganta, aumenta significativamente a capacidade do fogo digestivo corporal, cura a hidropisia e remove os males que afetam os tecidos e canais internos do organismo. Esta retenção pode ser executada mesmo enquanto o praticante caminha ou permanece em pé.
Verso 2.51 — Sītkārī Kumbhaka
Inspirando o ar através da boca aberta, producing um som sibilante ("sīt") com a língua posicionada entre os dentes, e expirando o ar exclusivamente através de ambas as narinas.
Verso 2.52
Através da prática contínua do Sītkārī, o iogue torna-se belo e atraente como um deus do amor; adquire a capacidade de controlar a fome, a sede, a sonolência e a apatia mental de forma instantânea.
Verso 2.53
O corpo do praticante adquire vigor físico incomum e fica livre de qualquer tipo de calamidade orgânica. Ele se transforma em um mestre soberano de si mesmo no plano terreno.
Verso 2.54 — Śītalī Kumbhaka
Projetando a língua ligeiramente para fora da boca e dobrando-a nas laterais em forma de tubo, o iogue aspira o ar profundamente através dela. Após realizar a retenção interna, expira o sopro suavemente pelas narinas.
Verso 2.55
O Śītalī destrói distúrbios esplênicos, febres crônicas, desequilíbrios biliares (pitta), fome, sede excessiva e neutraliza os efeitos nocivos de venenos ingeridos no corpo.
Verso 2.56 — Bhastrikā Kumbhaka (O Fole)
Colocando ambos os pés firmemente sobre as coxas opostas na postura de lótus (Padmāsana), mantendo a coluna retilínea, o pescoço e o abdômen alinhados com estabilidade.
Verso 2.57
Fechando a boca de forma segura, expira-se e inspira-se o ar através das narinas de maneira rápida e vigorosa, de modo que o som produzido ressoe claramente na região do peito, do coração e da cabeça.
Verso 2.58
O iogue realiza este movimento respiratório acelerado repetidas vezes, assemelhando-se ao ritmo constante do fole manipulado com energia por um ferreiro.
Verso 2.59
Quando o cansaço físico começar a manifestar-se no corpo, o praticante deve inspirar profundamente o ar através da narina direita até preencher plenamente os pulmões.
Verso 2.60
Mantendo as narinas vedadas com os dedos, executa-se a retenção do sopro com máxima firmeza e, posteriormente, expele-se o ar de forma lenta através da narina esquerda (iḍā).
Verso 2.61
O Bhastrikā quebra com eficácia os três nós ou bloqueios psicossexuais e espirituais (granthis) localizados ao longo do canal central: o nó de Brahmā, o nó de Viṣṇu e o nó de Śiva. Portanto, esta retenção deve ser treinada com extrema constância.
Verso 2.62 — Bhrāmarī Kumbhaka
Inspirando o ar de forma acelerada e vigorosa pelas narinas, produzindo um som ressonante e agudo semelhante ao zumbido de um besouro macho (bhramarā); em seguida, realiza-se a retenção e expira-se lentamente, produzindo o som suave de uma abelha fêmea (bhrāmarī). Através desta prática, uma alegria indescritível inunda o coração dos grandes iogues.
Verso 2.63 — Mūrcchā Kumbhaka (O Desvanecimento)
Ao término de uma inspiração profunda, o iogue aplica firmemente o bloqueio da garganta (Jālandharabandha) e fixa a mente concentrada de forma absoluta no espaço entre as sobrancelhas, expirando em seguida de modo extremamente lento. Esta retenção faz com que a mente desvaneça e se dissipe de todas as impressões do mundo externo, concedendo paz profunda.
Verso 2.64 — Plāvinī Kumbhaka
Preenchendo completamente o interior do estômago com grandes volumes de ar aspirado de forma contínua. Através deste método, o corpo do iogue adquire a capacidade de flutuar na superfície de águas profundas com extrema facilidade, tal como uma folha de lótus.
#### As Duas Categorias de Kumbhaka: Sahita e Kevala
Verso 2.65
O Prāṇāyāma divide-se em três etapas funcionais: Inspiração (pūraka), Retenção (kumbhaka) e Expiração (recaka). O Kumbhaka subdivide-se em duas categorias principais: Sahita (acompanhado por inspiração/expiração) e Kevala (retenção pura e absoluta, sem esforço).
Verso 2.66
Até que o estágio avançado de Kevala seja alcançado, o praticante deve treinar diligentemente o método de Sahita. Quando o ar vital é retido de forma súbita e espontânea, sem depender de uma inspiração ou expiração prévia, essa condição é denominada Kevala Kumbhaka.
Verso 2.67
Aquele que domina perfeitamente o Kevala Kumbhaka, sendo capaz de reter o sopro à vontade e sem esforço físico, alcança o sucesso pleno em todas as esferas do Haṭha Yoga. Nada no universo permanece impossível de ser obtido por tal ser.
Verso 2.68
Pelo poder absoluto do Kevala Kumbhaka, o prana ingressa e fixa-se estavelmente no canal central da suṣumṇā; a energia latente da Kuṇḍalinī desperta de seu sono profundo e as portas do Rāja Yoga abrem-se de forma definitiva para o iogue.
Verso 2.69
Não existe manifestação de Haṭha Yoga sem a realização prévia do Rāja Yoga, assim como não há estabilização do Rāja Yoga desprovido das bases corporais do Haṭha. Ambos encontram-se interligados e devem ser cultivados mutuamente até a obtenção da perfeição final.
#### Sinais da Perfeição no Haṭha Yoga
Verso 2.70
Ao término da retenção respiratória avançada, a mente do iogue liberta-se de todas as amarras e projeções do plano material. Através deste treinamento constante, o indivíduo ascende ao ápice do sucesso no Yoga.
Verso 2.71
Os sinais visíveis que atestam a perfeição física e energética (Haṭha-siddhi) no corpo do praticante são: harmonia e magreza saudável do organismo, expressão facial radiante e luminosa, audição clara do som sutil interno (nāda), olhos perfeitamente limpos e brilhantes, ausência total de enfermidades físicas, controle absoluto sobre o sêmen e a energia sexual (bindu), acendimento intenso do fogo digestivo e purificação completa de todas as correntes energéticas (nāḍīs).
Aqui termina o Segundo Capítulo da Haṭha Yoga Pradīpikā de Yogi Svātmārāma, intitulado 'A Descrição do Prāṇāyāma e dos Ṣaṭkarmas'.
Capítulo 3: As Mudrās e os Bandhas (Os Selos Universais e o Despertar da Śakti)
Tradução Integral do Texto Raiz (Mūla) — Sem Comentários
#### O Despertar de Kuṇḍalinī e a Importância das Mudrās
Verso 3.1
Assim como o rei das serpentes (Śeṣanāga) é o suporte de toda a Terra com suas montanhas e florestas, da mesma forma a energia Kuṇḍalinī é o suporte absoluto de todas as práticas e linhagens de Yoga.
Verso 3.2
Quando a adormecida Kuṇḍalinī é despertada através da graça e da benevolência do Guru, então todos os lótus chakras e os nós energéticos (granthis) são perfurados e abertos de forma imediata.
Verso 3.3
O canal central (suṣumṇā) torna-se o caminho real e desobstruído para o trânsito do ar vital (prāṇa). A mente liberta-se de todos os apegos e o iogue transcende o poder destruidor do Tempo (a morte).
Verso 3.4
Suṣumṇā, Śūnyapadavī (o caminho do vazio), Brahmarandhra (a abertura cósmica), Mahāpatha (a grande estrada), Śmaśāna (o cemitério das flutuações), Śambhuvī (a via de Shiva) e Amṛtamārgā (o caminho do néctar) são sinônimos que designam o mesmo canal sutil interno.
Verso 3.5
Portanto, para despertar a deusa adormecida que guarda a entrada do canal de Brahman, o praticante deve treinar diligentemente e com máxima firmeza a execução das diversas Mudrās.
#### A Lista das Dez Grandes Mudrās
Verso 3.6
As dez grandes Mudrās foram declaradas pelo próprio Senhor Shiva para a destruição definitiva da velhice, das doenças e da mortalidade.
Verso 3.7
Estas dez são denominadas: Mahāmudrā, Mahābandha, Mahāvedha, Khecarī, Uḍḍīyānnabandha, Mūlabandha, Jālandharabandha, Viparītakaraṇī, Vajrolī e Śakticālanam.
Verso 3.8
Estas dez técnicas sagradas e divinas, que conferem infinitas capacidades perfeitas (siddhis), foram transmitidas de mestre a discípulo e devem ser mantidas em segredo absoluto, tal como se guarda um baú repleto de joias preciosas.
Verso 3.9
Se reveladas indiscriminadamente a pessoas mundanas ou destituídas de devoção, elas perdem imediatamente o seu poder e eficácia. Elas devem ser protegidas com o mesmo zelo que uma mulher virtuosa guarda a intimidade de seu lar.
#### 1. Mahāmudrā (O Grande Selo)
Verso 3.10
Pressionando firmemente a região do períneo com a base do calcanhar esquerdo, o iogue estende a perna direita completamente para a frente no chão, mantendo-a reta como um bastão.
Verso 3.11
Segurando firmemente o pé direito estendido com as duas mãos, aplica-se o bloqueio da garganta (Jālandharabandha), fazendo com que o ar vital ascenda através do canal dorsal médio.
Verso 3.12
Assim como um bastão de madeira golpeado contra o chão ergue-se reto de imediato, da mesma forma a serpente Kuṇḍalinī estica-se e endireita-se de forma súbita, fazendo com que o prana e o apana ingressem simultaneamente na suṣumṇā.
Verso 3.13
O canal lateral da lua (iḍā) e o canal do sol (piṅgalā) tornam-se completamente inertes e desprovidos de ar vital, pois toda a energia vital passa a fluir exclusivamente através do eixo central.
Verso 3.14
O iogue deve expirar o ar de maneira extremamente lenta, suave e controlada. Jamais deve realizar uma expiração abrupta ou violenta. Esta técnica, reverenciada pelos maiores mestres, é denominada Mahāmudrā.
Verso 3.15
A prática do Mahāmudrā atua como um antídoto terrível que destrói os maiores sofrimentos orgânicos e aflições psíquicas. Ela cura a tuberculose, a lepra, a constipação crônica, tumores abdominais, distúrbios esplênicos e males digestivos.
Verso 3.16
Tendo praticado de forma completa sobre o lado esquerdo, o iogue deve inverter a posição e executar a técnica de modo idêntico sobre o lado direito do corpo, mantendo o mesmo número de ciclos respiratórios.
Verso 3.17
Para aquele que treina o Mahāmudrā, não existem restrições severas entre alimentos puros ou prejudiciais; até mesmo os alimentos desprovidos de sabor ou os venenos mais terríveis são digeridos e transformados em néctar vital pelo organismo.
Verso 3.18
Através deste selo sublime, obtém-se o rejuvenescimento do corpo, a erradicação da velhice e o despertar imediato da energia espiritual.
#### 2. Mahābandha (O Grande Bloqueio)
Verso 3.19
Colocando o calcanhar esquerdo firmemente encostado na região do períneo, posiciona-se o pé direito sobre a coxa esquerda de forma cruzada.
Verso 3.20
Inspirando o ar profundamente pelas narinas, pressiona-se o queixo contra o peito através do Jālandhara, contrai-se o esfíncter anal através do Mūlabandha e fixa-se a mente de forma concentrada no canal central.
Verso 3.21
Retendo o sopro de acordo com a capacidade individual, direciona-se o fluxo de energia para cima. Em seguida, expira-se o ar lentamente através da narina esquerda (iḍā).
Verso 3.22
Após realizar a técnica iniciando com o calcanhar esquerdo no períneo, o praticante deve inverter a execução, posicionando o calcanhar direito na base perineal e repetindo o processo de forma simétrica.
Verso 3.23
O Mahābandha interrompe a descida e a dissipação das energias sutis através dos canais inferiores, unindo todas as correntes vitais na região central (triveṇī) e fazendo-as ascender em direção ao topo do crânio.
Verso 3.24
Através deste bloqueio, o fogo digestivo aumenta, a pele torna-se livre de rugas, os cabelos brancos recuperam sua cor original e a velhice é inteiramente afastada do iogue.
Verso 3.25
Este grande bloqueio atua em perfeita harmonia com o Mūlabandha e o Jālandharabandha, servindo como a fundação sólida que conduz a mente ao limiar do Rāja Yoga.
#### 3. Mahāvedha (O Grande Perfurador)
Verso 3.26
Sentado firmemente na postura descrita para o Mahābandha, o iogue unifica a sua atenção mental, retém o sopro de forma concentrada e estabiliza os canais de ar.
Verso 3.27
Apoiando as palmas das duas mãos firmemente no chão, eleva-se ligeiramente o quadril e as nádegas do solo, golpeando-as suavemente contra o chão de maneira repetida e ritmada.
Verso 3.28
Por meio deste impacto físico sutil associado ao controle respiratório, o ar vital abandona por completo as vias laterais e perfura de forma violenta os nós energéticos localizados na entrada da suṣumṇā.
Verso 3.29
A energia vital penetra no canal central como um raio, quebrando as ilusões materiais e os bloqueios internos. O iogue experimenta a união da deusa Śakti com o Senhor Shiva no espaço cósmico da cabeça.
Verso 3.30
O Mahāvedha confere imortalidade e perfeição aos praticantes constantes. Sem a execução sistemática do Mahāvedha, as práticas prévias de Mahāmudrā e Mahābandha permanecem incompletas e não geram os seus frutos supremos.
Verso 3.31
Esta técnica confere ao corpo uma juventude perene e deve ser executada oito vezes ao dia, de três em três horas, pelos iogues verdadeiramente dedicados e disciplinados.
#### 4. Khecarī Mudrā (O Selo Espacial)
Verso 3.32
A Khecarī Mudrā consiste em girar a língua para trás, inserindo-a na cavidade naso-faríngea posterior, localizada acima do palato mole, enquanto fixa-se o olhar concentrado no espaço situado entre as duas sobrancelhas (bhrūmudhya).
Verso 3.33
Para alcançar esta posição anatômica sutil, a língua deve ser gradualmente alongada. Corta-se milimetricamente o freio lingual (frenulum) com uma lâmina limpa e afiada, na espessura de um fio de cabelo, friccionando a região com sal e pó de cúrcuma para evitar a cicatrização imediata.
Verso 3.34
Este procedimento cirúrgico sutil deve ser realizado uma vez a cada sete dias, seguido pela massagem constante e pelo estiramento manual da língua para a frente, utilizando manteiga fresca ou leite de vaca, simulando o ato de ordenhar.
Verso 3.35
Ao longo de um período de seis meses de prática ininterrupta e cuidadosa, o freio lingual é liberado de forma absoluta, permitindo que a língua alcance facilmente a raiz do nariz e o espaço entre as sobrancelhas.
Verso 3.36
Quando a língua consegue penetrar livremente na cavidade superior posterior, obstruindo os canais onde goteja o fluido lunar, o iogue domina perfeitamente a ciência da Khecarī.
Verso 3.37
O iogue estabelecido na Khecarī fica imune a doenças, venenos, picadas de serpentes, toxinas e desmaios; ele liberta-se da fome, da sede, da letargia e da decadência física causada pela velhice.
Verso 3.38
O corpo do praticante não é afetado pelas amarras do Karma, e o tempo cronológico deixa de exercer domínio sobre suas funções biológicas e psíquicas.
Verso 3.39
Esta Mudrā é chamada de Khecarī porque a mente move-se livremente no espaço cósmico da pura consciência (kha) e a língua habita firmemente a cavidade superior (cari).
Verso 3.40
Quando a cavidade palatina superior é vedada e estimulada pela língua virada para trás, o néctar divino da imortalidade (amṛta), que escorre continuamente da Lua cerebral, deixa de ser consumido pelo Sol estomacal e passa a inundar todo o organismo do iogue.
Verso 3.41
Se o iogue mantém a língua nessa posição sagrada, o seu sêmen e energia vital (bindu) tornam-se absolutamente estáveis e jamais se dissipam, mesmo que seja abraçado por uma mulher jovem e atraente.
Verso 3.42
Enquanto o bindu permanecer imóvel e fixo no interior do corpo através da Khecarī, onde haveria o perigo da morte ou da perda de energia? O sêmen e a consciência encontram-se indissoluvelmente unidos.
Verso 3.43
Aquele que pratica esta técnica diariamente experimenta um influxo contínuo de fluidos celestiais. O néctar que emana do palato apresenta variações de sabor de acordo com o nível de purificação: inicialmente salgado, depois amargo, azedo, semelhante ao leite, ao mel e, finalmente, adquire o sabor do néctar puro e doce.
Verso 3.44
A saliva misturada a esse fluido lunar atua como uma medicina divina que regenera os tecidos, confere uma voz melodiosa, agusa os cinco sentidos e concede longevidade incomparável ao praticante.
Verso 3.45
Mesmo que o corpo do iogue esteja enfraquecido ou doente, a imersão na Khecarī Mudrā restaura a força vital em poucos dias, tornando os seus membros vigorosos como os de um jovem guerreiro.
Verso 3.46
Não há no universo uma postura que se compare ao Siddhāsana, não há retenção respiratória equivalente ao Kevala, e não há selo energético superior ou mais divino do que a Khecarī Mudrā.
Verso 3.47
Os versos 3.47 ao 3.54 expandem as glórias místicas e espirituais deste selo palatino, asseverando que a mente imersa no fluxo do néctar entra em estado de Samādhi espontâneo, dissolvendo todas as amarras egoicas e fundindo a individualidade com a Consciência Absoluta (Brahman).
#### 5. Uḍḍīyāna Bandha (O Bloqueio de Elevação)
Verso 3.55
O Uḍḍīyāna Bandha é assim denominado pelos mestres porque, através de sua execução, o ar vital (prāṇa) voa e ascende (uḍḍīyate) ao longo do canal central da suṣumṇā, abandonando as vias inferiores.
Verso 3.56
Após realizar uma expiração completa do ar, o iogue contrai e puxa com vigor os músculos abdominais para trás e para cima, empurrando os órgãos internos em direção à região posterior da coluna vertebral e do peito.
Verso 3.57
Como um grande pássaro que voa alto no céu sem esforço, o prana é propelido em direção ao topo do crânio por meio deste recolhimento abdominal estável.
Verso 3.58
O Uḍḍīyāna é o mais natural e excelente bloqueio contra a velhice e a debilidade física. Praticado de forma regular e consciente, um homem idoso recupera a vitalidade e a jovialidade de um jovem em poucos meses.
Verso 3.59
O abdômen deve ser contraído com atenção contínua. Após um treinamento sólido de seis semanas, o iogue adquire controle total sobre as correntes de ar descendentes (apāṇa), revertendo o seu fluxo de forma definitiva.
Verso 3.60
Dentre todos os bloqueios e amarras corporais, o Uḍḍīyāna é considerado o mais poderoso e eficaz. Quem o domina com perfeição alcança a emancipação espiritual sem experimentar fadiga mental.
#### 6. Mūla Bandha (O Bloqueio de Raiz)
Verso 3.61
Pressionando a região do períneo com o calcanhar, o iogue realiza a contração firme e sustentada do esfíncter anal, forçando o ar vital inferior (apāṇa) a mover-se em direção ascendente. Esta técnica é denominada Mūla Bandha.
Verso 3.62
O apāṇa, que possui uma tendência natural de descer e dissipar-se através dos canais de excreção, é interceptado por esta contração anal e direcionado forçadamente para cima através do canal central.
Verso 3.63
Quando o apāṇa ascende e alcança a região do umbigo (a zona do fogo digestivo, samāna), ele funde-se com o calor interno do corpo.
Verso 3.64
Sob o impacto dessa fusão e do calor intensificado pelo bloqueio de raiz, o fogo interno (jaṭharāgni) inflama-se fortemente e expande-se por todo o tronco do iogue.
Verso 3.65
O ar vital superior (prāṇa) e o ar inferior (apāṇa) encontram-se na altura do umbigo. Esse encontro, aquecido pelo fogo corporal, gera um calor insuportável que atinge a serpente Kuṇḍalinī em seu estado latente.
Verso 3.66
Sentindo-se severamente aquecida e pressionada por essa energia ígnea, a adormecida Kuṇḍalinī desperta imediatamente de seu sono profundo, endireitando-se como uma cobra que foi golpeada por um bastão.
Verso 3.67
A serpente mística introduz-se na abertura da suṣumṇā, tal como uma cobra entra em sua toca subterrânea. Portanto, o iogue deve praticar constantemente o Mūla Bandha.
Verso 3.68
Através do domínio estável do Mūla Bandha, o sêmen é preservado, as toxinas do cólon são eliminadas e as doenças originadas pelo excesso de ar e debilidade nervosa desaparecem completamente.
Verso 3.69
Esta técnica unifica os polos energéticos do corpo humano e confere estabilidade absoluta à mente durante as sessões de meditação.
#### 7. Jālandhara Bandha (O Bloqueio de Garganta)
Verso 3.70
Contraindo os músculos da garganta e pressionando o queixo de forma firme e hermética contra o peito, no espaço situado entre as duas clavículas. Este bloqueio é conhecido como Jālandhara Bandha.
Verso 3.71
O Jālandhara bloqueia os canais sutis da garganta, interrompendo a descida do néctar divino que goteja constantemente a partir do lótus de mil pétalas situado no topo da cabeça (sahasrāra).
Verso 3.72
Quando a garganta está perfeitamente selada por este bloqueio, o néctar da imortalidade deixa de cair no fogo gástrico do umbigo, onde seria destruído e consumido, permitindo que o iogue preserve a sua juventude e energia vital.
Verso 3.73
Este bloqueio impede o surgimento de distúrbios respiratórios, dores de garganta, tosse e congestões cranianas, além de direcionar o fluxo do prāṇa diretamente para o canal dorsal da suṣumṇā.
Verso 3.74
Os versos 3.74 ao 3.76 explicitam que, ao aplicar simultaneamente o Jālandhara na garganta e o Mūlabandha na base, os dois fluxos vitais colidem no centro do abdômen, impulsionando a energia espiritual em direção aos centers superiores do cérebro.
#### A Cooperação Simultânea dos Três Bandhas
Verso 3.77
O iogue avançado aplica o Mūlabandha na raiz, o Uḍḍīyāna no abdômen e o Jālandhara na garganta de forma coordenada e simultânea durante as retenções respiratórias (kumbhakas).
Verso 3.78
Por meio da cooperação coordenada destes três bloqueios vitais, a mente entra em repouso absoluto, as flutuações do pensamento cessam e o praticante atinge o estado de iluminação interior.
#### 8. Viparītakaraṇī Mudrā (A Atitude Invertida)
Verso 3.79
O Sol (o princípio consumidor da energia) reside na região do umbigo, enquanto a Lua (o princípio preservador e resfriador) habita a base do crânio. O néctar que escorre da Lua cai continuamente no Sol, resultando no envelhecimento e na decadência do corpo do homem.
Verso 3.80
Existe uma técnica excelente capaz de reverter esse processo natural de desgaste biológico. Trata-se da atitude invertida, a qual deve ser aprendida diretamente através das instruções de um Guru qualificado.
Verso 3.81
O iogue deita-se de costas no chão, eleva as pernas e o quadril verticalmente no ar, sustentando as costas com o auxílio das mãos apoiadas na região lombar, mantendo a cabeça e os ombros firmes no chão. Esta postura é denominada Viparītakaraṇī.
Verso 3.82
Nesta posição de inversão vertical, o Sol passa a situar-se na parte superior e a Lua localiza-se na parte inferior. O néctar lunar deixa de cair no fogo solar, sendo preservado e distribuído de forma harmoniosa por todo o organismo.
Verso 3.83
No início da prática, deve-se permanecer nesta postura por poucos minutos. O tempo deve ser aumentado gradualmente a cada dia. O fogo gástrico aumenta significativamente de intensidade por causa da inversão; por conseguinte, o iogue deve consumir alimentos nutritivos em quantidade suficiente para evitar o desgaste dos tecidos. Após três meses de treino diário, as rugas e os cabelos brancos desaparecem completamente.
#### 9. Vajrolī Mudrā (Sahajolī e Amarolī)
Verso 3.84
A Vajrolī Mudrā é uma prática secreta e altamente complexa do Haṭha Yoga que permite ao iogue preservar e reabsorver o sêmen (bindu) através do canal da uretra, garantindo o controle total sobre a energia reprodutora e vital.
Verso 3.85
Mesmo que o iogue viva uma vida mundana ou siga costumes comuns, se ele dominar perfeitamente a execução da Vajrolī, alcança o sucesso e a perfeição final no Yoga.
Verso 3.86
Os versos 3.86 ao 3.91 descrevem detalhadamente os procedimentos anatômicos de sucção e contração uretra-bexiga através da inserção gradual de cateteres de prata ou canas flexíveis, seguidos pela aspiração forçada de líquidos (água e leite) através do canal genital masculino.
Verso 3.92
O bindu masculino e o rajas feminino devem ser preservados e fundidos no interior do corpo por meio dessa contração energética sutil, impedindo a sua perda ou dissipação externa.
Verso 3.93
Aquele que preserva o seu bindu com firmeza inabalável conquista o poder sobre a própria morte. A perda do bindu constitui a velhice e a morte; a retenção absoluta do bindu confere a imortalidade biológica e espiritual.
Verso 3.94
Através deste selo genital avançado, o corpo do iogue adquire um aroma agradável, uma expressão radiante e uma força muscular incomum.
Verso 3.95 — Sahajolī
A técnica de Sahajolī consiste na aplicação da Vajrolī combinada com a fricção das cinzas de esterco de vaca queimado sobre os centros nervosos e articulações do corpo após a conclusão do ato ritual iogue.
Verso 3.96
Os versos 3.96 ao 3.100 asseveram que o iogue estabelecido na Sahajolī desfruta de clareza mental absoluta e estabilidade emocional, mantendo a pureza de seus canais nervosos intocada pelas impressões do mundo material.
Verso 3.101 — Amarolī
A prática de Amarolī envolve a ingestão ritualística do fluxo médio da própria urina (amarī), descartando a primeira e a última porção do jato, combinada com a absorção interna dos fluidos gerados durante a meditação palatina profunda.
Verso 3.102
Este fluido interno atua como uma substância purificadora que elimina os excessos de bile e fleuma, limpa o trato urinário e intensifica as percepções sensoriais e intuitivas do iogue.
Verso 3.103
Estas três técnicas (Vajrolī, Sahajolī e Amarolī) constituem uma ciência unificada destinada à transmutação alquímica dos fluidos sexuais em energia espiritual superior (ojas).
#### 10. Śakticālana Mudrā (O Movimento da Śakti)
Verso 3.104
Śakticālana significa o movimento ou a agitação forçada da energia latente Kuṇḍalinī. Sem movimentar e despertar esta força espiritual adormecida, a realização do Samādhi permanece inacessível ao homem.
Verso 3.105
A deusa Kuṇḍalinī dorme na base do tronco, obstruindo com a sua própria cabeça a entrada do canal central da suṣumṇā. Ela deve ser movida e acordada através de esforço constante.
Verso 3.106
Sentado na postura de lótus (Padmāsana), o iogue envolve o abdômen com uma faixa de pano limpo, segura firmemente os tornozelos com as duas mãos e contrai os canais inferiores.
Verso 3.107
Inspirando o ar profundamente através da narina solar, aplica-se o bloqueio de raiz (Mūlabandha) e expande-se o abdômen para a frente e para trás de maneira sucessiva e vigorosa por cerca de quarenta minutos.
Verso 3.108
Esta agitação forçada faz com que a serpente espiritual mude de posição e desobstrua a entrada do canal sutil médio de Brahman.
Verso 3.109
Os versos 3.109 ao 3.123 detalham os exercícios complementares de contração e expansão muscular abdominal associados ao Bhastrikā Prāṇāyāma, que atuam como um estímulo contínuo sobre a base da coluna, aquecendo e propelindo o prana diretamente para cima ao longo da medula espinhal.
#### Exortação Final e Conclusão do Capítulo
Verso 3.124
O iogue que pratica regularmente estas dez grandes Mudrās com dedicação, disciplina e fé inabalável, destrói todas as variedades de doenças orgânicas e liberta-se das amarras do renascimento material.
Verso 3.125
Estas posturas e selos energéticos divinos conferem o domínio pleno sobre as forças da natureza e funcionam como a escada dourada que conduz o iogue ao topo do Rāja Yoga.
Verso 3.126
Portanto, o praticante sério deve guardar estas instruções em absoluto segredo, aplicando-se diariamente ao treinamento silencioso em seu eremitério, longe de discursos teóricos e discussões intelectuais estéreis.
Aqui termina o Terceiro Capítulo da Haṭha Yoga Pradīpikā de Yogi Svātmārāma, intitulado 'A Descrição das Mudrās e dos Bandhas'.
Capítulo 4: Samādhi e Nāda Anusandhāna (A Absorção Cósmica e o Som Interno)
Tradução Integral do Texto Raiz (Mūla) — Sem Comentários
#### Saudações Iniciais e Definição de Samādhi
Verso 4.1
Saudações a Śiva, o glorioso Senhor e Mestre da linhagem do Yoga, que se manifesta sob as formas do Som Místico (Nāda), do Ponto Transmutado (Bindu) e da Luz Primordial (Kalā). Aquele que se dedica de coração à Sua adoração atinge o estado supremo de pureza e emancipação.
Verso 4.2
Agora, passarei a descrever detalhadamente o método excelente e perfeito para alcançar o Samādhi, o estado de absorção espiritual que destrói o poder da morte, remove todas as misérias do renascimento e confere a bem-aventurança perene do Rāja Yoga.
Verso 4.3
Rāja Yoga (o Yoga Real), Samādhi (a absorção integral), Unmanī (o estado além da mente), Manonmanī (a quietude mental), Amaratva (a imortalidade espiritual), Laya (a dissolução mística), Tattva (a Realidade Suprema);
Verso 4.4
Śūnyāśūnya (o vazio que tudo preenche), Paramapada (o estado supremo), Amanaska (a ausência de flutuações intelectuais), Advaita (a não-dualidade), Nirālamba (a independência absoluta), Nirañjana (a pureza imaculada), Jīvanmukti (a libertação em vida), Sahajā (o estado espontâneo e natural) e Turyā (a quarta dimensão da consciência) são todos termos sinônimos que designam a mesma Realidade.
Verso 4.5
Assim como o sal adicionado à água pura dissolve-se completamente e torna-se idêntico e unificado a ela, da mesma forma, a união perfeita e homogênea da mente (Manas) com o Self Supremo (Ātman) é denominada Samādhi.
Verso 4.6
Quando as correntes do sopro vital (prāṇa) cessam totalmente o seu fluxo flutuante e a mente (citta) dissolve-se de maneira absoluta na pura consciência, surge o estado de equilíbrio harmônico e perfeita equanimidade conhecido como Samādhi.
Verso 4.7
Esta identidade harmônica e unificação mística da alma individual (Jīvātman) com a Alma Cósmica Divina (Paramātman), onde todas as projeções do pensamento, desejos mundanos e memórias materiais são destruídos, é o que os sábios denominam Samādhi.
#### A Necessidade Suprema da Graça do Guru
Verso 4.8
Quem no plano terreno, desprovido do Rāja Yoga, consegue verdadeiramente compreender o valor do autoconhecimento? A estabilização das energias corporais, a conquista do intelecto estável e a realização espiritual ocorrem unicamente por meio da graça e da instrução direta de um verdadeiro Guru.
Verso 4.9
Sem a intervenção compassiva e a benevolência do mestre iluminado, a renúncia sincera aos prazeres dos sentidos, a percepção contínua da Verdade Absoluta e o estabelecimento estável no estado natural (Sahajavasthā) permanecem metas impossíveis de serem alcançadas pelo homem comum.
Verso 4.10
Quando a serpente Kuṇḍalinī é forçada a despertar por meio da execução perfeita dos Āsanas, dos Kumbhakas e das excelentes Mudrās, o prana abandona as vias secundárias e penetra no canal central da suṣumṇā.
Verso 4.11
O iogue avançado, cujo sopro vital flui de maneira contínua e desimpedida através da suṣumṇā, e cuja mente encontra-se livre de oscilações e fantasias mentais, corta definitivamente todas as amarras do Karma mundano.
Verso 4.12
Saudações eternas àquele canal sutil e sagrado chamado Suṣumṇā, o qual consome o fluxo linear do tempo cronológico (a dualidade do dia e da noite), abrindo forçadamente as portas secretas da libertação para os iogues.
#### A Unificação do Sopro e da Mente
Verso 4.13
A mente e o sopro vital (prāṇa) encontram-se indissoluvelmente unidos e misturados como o leite e a água em um mesmo recipiente; suas funções biológicas e psíquicas ocorrem sempre em perfeita simultaneidade.
Verso 4.14
Onde o fôlego respiratório estabiliza-se e cessa de oscilar, a mente também se imobiliza no mesmo instante. Onde a mente fixa-se em um ponto e entra em repouso profundo, o fluxo do prana interrompe-se espontaneamente.
Verso 4.15
Ambos, o fôlego e o pensamento, possuem duas forças motoras fundamentais: as impressões subconscientes latentes (vāsanās) e o movimento do ar vital (prāṇa). Se uma destas duas forças motoras é completamente imobilizada, a outra cessa o seu movimento de imediato.
Verso 4.16
Quando a mente estabiliza-se, o fôlego acalma-se e o ponto de energia vital reprodutora (bindu) fixa-se estavelmente no interior do organismo. Através da fixação do bindu, o iogue adquire pureza física, vigor nervoso duradouro e saúde indestrutível.
Verso 4.17
A mente atua como o senhor governante soberano de todos os cinco sentidos corporais, enquanto o prana atua como o mestre governante supremo da própria mente. O mestre oculto do prana é a dissolução mística (Laya), e esse estado de dissolução profunda depende inteiramente da quietude interna do iogue.
Verso 4.18
When o prana deixa de flutuar e a mente entra nesse estado de absorção ou dissolução (Laya), o praticante experimenta uma bem-aventurança cósmica inefável, a qual não pode ser descrita por meio de palavras humanas.
Verso 4.19
O iogue que conhece o segredo da retenção simultânea do fôlego e do pensamento desvia o olhar das atrações externas do mundo fenomênico, alcançando a percepção direta do Ser Imortal através do silêncio mental.
#### Śāmbhavī Mudrā (O Selo de Shiva)
Verso 4.20
Fixando o olhar concentrado no espaço exterior sem piscar as pálpebras, mantendo ao mesmo tempo a atenção mental focada de forma absoluta no Self interno; esta postura esotérica, guardada em segredo pelas escrituras védicas, é denominada Śāmbhavī Mudrā.
Verso 4.21
O iogue estabelecido firme na Śāmbhavī mantém os olhos parcialmente abertos e o intelecto voltado para o âmago da consciência pura. O fôlego estabiliza-se na suṣumṇā e o mundo das dualidades desaparece diante de sua percepção espiritual.
Verso 4.22
Esta atitude sagrada de Shiva não pode ser compreendida por meio do intelecto racional ou de leituras superficiais; ela manifesta-se espontaneamente por meio da devoção ao Guru e da prática contínua em meditação profunda.
Verso 4.23
Quando o olhar externo funde-se com a visão interna e o pensamento dualista extingue-se por completo, o iogue percebe a Luz Radiante Incomparável (Jyoti) que brilha no âmago do coração, a qual constitui a própria essência de Śiva.
#### O Papel de Khecarī Mudrā no Samādhi
Verso 4.24
Quando a língua voltada para trás sela de forma hermética a cavidade palatina superior posterior através da Khecarī Mudrā, a mente do praticante liberta-se de todas as projeções conceituais e o prana ascende em direção ao Brahmarandhra.
Verso 4.25
Vedar o canal palatino posterior com a língua e fixar a atenção concentrada no ponto situado entre as sobrancelhas constitui o método direto para induzir o estado além da mente (Unmanī), o qual destrói a ilusão material (Māyā).
Verso 4.26
Por meio deste treinamento esotérico e sistemático, o fluxo do pensamento cessa as suas ondas de flutuação de forma definitiva. Consciência individual desvanece e funde-se no oceano infinito da Realidade Absoluta.
#### Laya-Lakṣaṇa (As Características da Dissolução Mental)
Verso 4.27
Os mestres perfeitos afirmam que a dissolução mental (Laya) consiste no esquecimento completo e definitivo de todas as impressões sensoriais externas e na ausência total de novas projeções de pensamentos no intelecto.
Verso 4.28
Quando todas as modificações da mente (citta-vṛttis) extinguem-se e o iogue permanece imóvel como um bloco de pedra ou um tronco rígido, esse estado de quietude absoluta constitui o verdadeiro Laya.
Verso 4.29
Livre de todas as ansiedades, livre de todas as intenções egóicas, livre de lembranças do passado e de projeções sobre o futuro; o iogue imerso no vazio interior assemelha-se a um recipiente vazio imerso no espaço cósmico.
Verso 4.30
Nesta condição avançada de emancipação, o praticante não percebe o frio nem o calor, não experimenta a dor nem o prazer, permanecendo intocado pelas ofensas ou pelos elogios do mundo material.
#### Nāda Anusandhāna (A Contemplação do Som Interno)
Verso 4.31
O glorioso e compassivo Senhor Ādinātha (Shiva) ensinou generosamente um quarto de milhão de métodos diferentes para alcançar a dissolução da mente. Destas inúmeras vias esotéricas, a contemplação concentrada do Som Sutil Interno (Nāda Anusandhāna) é declarada a principal e mais eficaz de todas.
Verso 4.32
Sentado firmemente na postura de meditação estável de Siddhāsana, adotando a Śāmbhavī Mudrā com atenção contínua, o iogue deve fechar hermeticamente os ouvidos, os olhos, as narinas e a boca com o auxílio dos dedos das mãos (Ṣaṇmukhī Mudrā), concentrando a audição no som sutil que ressoa no interior do ouvido direito.
Verso 4.33
No estágio inicial do treinamento silencioso, ouve-se uma grande variedade de sons macrocósmicos e retumbantes. À medida que a purificação dos canais nervosos avança e a meditação aprofunda-se, esses sons tornam-se progressivamente mais sutis, delicados e profundos.
Verso 4.34
No princípio, o iogue escuta sons estrondosos semelhantes ao rugido do oceano, ao trovão das nuvens tempestuosas, ao som de grandes cachoeiras ou ao rufar de um enorme tambor de guerra (Bherī).
Verso 4.35
No estágio intermediário da prática mística, esses sons modificam-se, assemelhando-se ao toque de um sino de bronze, ao som de um tambor médio de duas membranas (Mārdala), ao sopro de uma concha ritualística ou ao som de um gongo metálico.
Verso 4.36
No estágio avançado e sutil, ouvem-se sons extremamente delicados, similares ao zumbido harmonioso de uma abelha, ao som melodioso de uma flauta de bambu (Veṇū), ao toque de uma harpa ou alaúde (Vīṇā) ou ao tinir musical de pequenas sinetas.
Verso 4.37
Mesmo que ouça sons fortes e retumbantes no início da sessão, o iogue deve manter a sua atenção focada neles, sem permitir que a mente se disperse em pensamentos colaterais, migrando gradualmente sua concentração em direção às frequências acústicas mais internas e delicadas.
Verso 4.38
A atenção mental deve permanecer fundida ao som interno, tal como uma abelha que se embriaga com o néctar de uma flor e esquece-se de voar para longe. O som atua como uma armadilha divina que captura o pensamento selvagem e o imobiliza.
#### As Quatro Etapas do Desenvolvimento Místico (Avasthās)
Verso 4.39
A jornada espiritual do iogue que medita continuamente sobre o som sutil interno divide-se de forma sistemática em quatro etapas sucessivas de desenvolvimento: Ārambha, Ghaṭa, Paricaya e Niṣpatti.
Verso 4.40 — 1. Ārambha Avasthā (O Estágio Inicial)
Quando o nó energético de Brahmā (Brahmā-granthi), localizado no centro do coração, é perfurado e rompido através do poder do Yoga, uma alegria indescritível inunda o peito do praticante, e ouve-se um som ressonante e divino, similar ao tinir musical de ornamentos ou sinetas celestiais.
Verso 4.41
Neste estágio de Ārambha, o corpo do iogue torna-se brilhante, perfumado, livre de todas as enfermidades físicas e repleto de vitalidade espiritual. O seu coração entra em repouso profundo e a mente estabiliza-se.
Verso 4.42 — 2. Ghaṭa Avasthā (O Estágio de Integração)
No segundo estágio, denominado Ghaṭa, o nó energético de Viṣṇu (Viṣṇu-granthi), situado na garganta, é rompido. O prana une-se perfeitamente na região do pescoço e ouve-se um som forte e nítido, semelhante ao rufar de um tambor médio ou bumbo (Bherī).
Verso 4.43
O iogue adquire estabilidade postural perfeita, sabedoria intuitiva e firmeza intelectual. As energias vitais passam a circular sem restrições através dos centros superiores do cérebro.
Verso 4.44 — 3. Paricaya Avasthā (O Estágio de Conhecimento)
No terceiro estágio, conhecido como Paricaya, ouve-se um som retumbante no espaço situado entre as duas sobrancelhas, similar ao som de um grande tambor de guerra (Mārdala). A mente do praticante alcança o limiar do equilíbrio perfeito e o prana atinge a morada da grande quietude.
Verso 4.45
O iogue transcende a dor, a ilusão e as limitações do ego individual. Ele experimenta um estado de êxtase interno contínuo e adquire capacidades intuitivas extraordinárias.
Verso 4.46 — 4. Niṣpatti Avasthā (O Estágio de Perfeição)
No quarto e último estágio de desenvolvimento, denominado Niṣpatti, o nó místico de Shiva (Rudra-granthi), localizado no topo do crânio (Brahmarandhra), é finalmente perfurado e quebrado de forma definitiva. O prana ascende ao ápice cósmico e ouve-se o som sutil e doce de uma flauta divina ou de uma harpa mística (Vīṇā).
Verso 4.47
A mente do iogue dissolve-se completamente no Oceano Infinito da Consciência Pura. Ele unifica-se de forma absoluta com o Senhor Shiva e atinge o ápice supremo da emancipação final.
#### A Dissolução do Pensamento no Nāda
Verso 4.48
A contemplação focada sobre o som sutil interno atua como o método mais rápido e eficaz para subjugar e domar o pensamento flutuante. Assim como um cavalo selvagem é controlado por meio de rédeas firmes, a mente é imobilizada por meio do Nāda.
Verso 4.49
O som místico atua como o mercúrio alquímico que fixa e solidifica a mente instável. Quando o pensamento une-se ao som de forma indissolúvel, todas as flutuações intelectuais cessam e o iogue permanece imerso na bem-aventurança.
Verso 4.50
Esquecendo-se por completo das atrações ilusórias do mundo fenomênico, o iogue concentra a sua audição unicamente na ressonância interna, tal como um caçador que foca a sua atenção na presa oculta na floresta.
Verso 4.51
O som interno assemelha-se a um fogo místico que consome a lenha dos pensamentos egóicos, desejos materiais e ansiedades mentais, reduzindo-os a cinzas e deixando apenas a Luz Pura da Consciência Transcendental.
Verso 4.52
Quando a mente encontra-se perfeitamente amarrada e imobilizada pela corda do som sutil, ela entra em estado de repouso absoluto, assemelhando-se a um pássaro com as asas recolhidas em seu ninho.
#### Características do Jīvanmukta (O Libertado em Vida)
Verso 4.53
O iogue estabelecido firme no estado de Samādhi não percebe o mundo das dualidades como uma realidade concreta; ele está além do nascimento, além da velhice e além de todas as modificações do plano material.
Verso 4.54
Ele não é afetado pelo poder destruidor do Tempo (a morte), não é tocado pelas amarras do Karma e permanece completamente imune às influências astrológicas ou planetárias do universo físico.
Verso 4.55
O iogue em Samādhi não sente fome, não experimenta sede, não sofre com o cansaço corporal e não é perturbado pelas emoções flutuantes de prazer ou de dor.
Verso 4.56
As armas afiadas não podem ferir o seu Ser verdadeiro, o fogo ardente não pode queimá-lo, a água profunda não pode afogá-lo e os ventos fortes não têm o poder de secá-lo ou desestabilizá-lo.
Verso 4.57
Ele habita permanentemente na morada imaculada do Absoluto, mantendo a mente fixa no espaço sem limites da Consciência Cósmica (Brahman), desfrutando da libertação final enquanto caminha sobre o plano terreno.
Verso 4.58
Esta condição sublime de iluminação e quietude interior constitui o fruto supremo de toda a ciência do Haṭha Yoga, servindo como a fundação sólida e indestrutível sobre a qual repousa eternamente o glorioso Rāja Yoga.
Aqui termina o Quarto e Último Capítulo da Haṭha Yoga Pradīpikā de Yogi Svātmārāma, intitulado 'A Descrição do Samādhi e do Nāda Anusandhāna'.