Agradeço à minha família e amigos, em especial minha esposa e minha filha, ouvintes e interlocutores sempre dispostos a participar das eloquentes explorações filosóficas nos instantes mais cotidianos, à mesa do café, no final de um almoço, se tornando assim meus primeiros alunos e professores. Estímulo e fonte de imenso crescimento pessoal.
A todos os bons professores de Yoga pelo meu caminho, com destaque à professora Marilene Lara e o professor Sérgio Carvalho, mestres na melhor acepção da palavra, demonstrando com toda propriedade e através do exemplo o que realmente importa no aprimoramento de nossa existência, sem nunca desejar qualquer menção ou mérito, apesar de sua significativa contribuição. Inspiração para o contínuo aprimoramento.
Também sou grato a todos os amigos de classe do curso de formação, cuja turma com sua multiplicidade de origens e perfis permite descobrir como os caminhos se manifestam de muitas maneiras, mas na integração do Yoga, o objetivo maior é o mesmo. Expandir a visão amplia sua experiência e seu ser.
O alinhamento de nossos anseios às ideias preconizadas por uma filosofia, por uma prática como o Yoga, é fator determinante em nossa realização ou, ao menos, em nossa persistência na busca naquele caminho e elemento para questionamento de nossas escolhas e de nossa própria definição como seres a explorar determinado plano de existência.
No presente trabalho busquei respostas ao meu questionamento, e de meus colegas de turma de formação, a respeito de um sutra presente nos Yoga Sutras de Patañjali que conecta a obtenção de discernimento ao sofrimento, sugerindo casualidade entre ambos.
Através da exploração de algumas interpretações do texto clássico, publicadas em livros ou artigos acadêmicos, procurei obter indícios, consistências ou divergências entre eles, que permitam compreender melhor as relações destes dois conceitos, seus reflexos na adoção das escolhas desta escola e no desenvolvimento de nosso caminho pessoal.
Palavras-chave: yoga, sutras, sofrimento, discernimento.
O tema do presente trabalho veio à luz em uma aula de nosso curso de especialização, enquanto estudávamos os Yoga Sutras. Durante o estudo da escritura chegamos ao sutra 2.15, onde lê-se a frase que diz "tudo é sofrimento para quem tem discernimento". Se a busca no caminho do Yoga pretende algum tipo de libertação, como é possível com a iluminação alguém encontrar-se em situação de sofrimento?
A frase perturbou a mim e muitos dos colegas de turma, pois parece inconsistente com a busca de discernimento, afinal nossa percepção sugere que tal busca deveria resultar em alívio da dor e não o contrário.
Acaso poderia ser apenas uma impressão pessoal, mas a referência é explícita no texto do Bhagavad Gita, no capítulo 6, verso 17, onde se lê:
Para a pessoa que se alimenta, descansa e trabalha de maneira regulada e mantém horários regulares na medida adequada, a prática de yoga dissipa todos os sofrimentos. (MAHARAJ, 2017, pg. 110)
Alguns versos à frente (21-22), reforçando ainda mais a perspectiva do caminho para o praticante do Yoga, localizei o seguinte trecho:
O yogī permanece satisfeito apenas no Senhor, percebendo diretamente a Superalma através de sua consciência purificada. Em sua iluminação espiritual, ele saboreia a felicidade transcendental e eterna. Ele nunca se desvia da realidade. Considera que não existe ganho maior neste mundo. Não é perturbado sequer pelo pior dos sofrimentos. Saiba que a obtenção desse estado, no qual toda associação com a infelicidade é eliminada, recebe o nome de yoga. (MAHARAJ, 2017, pg. 112)
Mesmo em outro âmbito, na perspectiva do professor B. K. S. Iyengar, identifiquei a promessa de horizontes semelhantes como resultado para aqueles que se dedicam à prática:
Quem segue o caminho do Yoga é um iogue, ou ioguin. No sexto capítulo do Bhagavad-Gita, que é a mais importante fonte autorizada da filosofia iogue, Sri Krishna explica a Arjuna o significado do Yoga como uma libertação do contato com a dor e a tristeza:
"Quando a mente, o intelecto e o ego (ahamkara) estão sob controle, livres do desejo agitado, de modo a repousar no espírito interior, o homem torna-se um yukta — alguém em comunhão com Deus. Uma lâmpada não vacila num lugar onde não sopra vento; o mesmo ocorre com o iogue que controla a mente, o intelecto e o ego, absorto no espírito interior. Quando a agitação da mente, do intelecto e do ego é silenciada pela prática do yoga, o iogue, através da graça do espírito em si mesmo, atinge a realização. Ele então conhece a alegria eterna que está além dos limites dos sentidos, uma alegria que a razão não pode alcançar. Ele se concilia com a realidade e não foge a ela. Descobriu o tesouro que está acima de todos. Não há nada mais elevado que isso. Quem o atingiu não será abalado pela mais intensa dor. Esse é o significado real do Yoga – uma libertação do contato com a dor e a tristeza." (IYENGAR, 2002, pg. 17-18)
Nossa leitura em aula era realizada sobre uma tradução produzida por nossa professora, sendo então as referências e apoios pautados na sua experiência pessoal. Apesar do tempo e atenção dedicados naquele momento para dirimir dúvidas, ainda senti a necessidade de buscar mais elementos e outras visões que discutam tal afirmação feita nos textos ancestrais, pesquisa que não condizia com a carga horária disponível naquele contexto de curso.
Aqueles que buscam uma prática, que adotam alguma filosofia, almejam realizar ou satisfazer algo, identificam em suas escolhas compatibilidade com seus anseios, com seu perfil e sua dedicação. A aderência a sua escolha estará condicionada ao alcance de suas metas, à sua realização individual.
Entender os fundamentos preconizados no Yoga, suas propostas e caminhos, permite compreender melhor a adequação do praticante aos seus preceitos, ou ao menos deixar claros os desafios.
Os Yoga Sutras em todo seu conjunto representam a concretização desta prática, um caminho definido, cada sutra registrado revela os termos do compromisso de quem o adota. Desta forma, a análise mesmo de uma amostra, que parece contrastar com as expectativas de seus praticantes, poderá aprofundar sua compreensão.
O presente trabalho se caracteriza por revisão bibliográfica que busca comparar diferentes traduções dos Yoga Sutras de Patañjali para elucidar o significado do sutra que destaca a relação entre discernimento e sofrimento.
As traduções, influenciadas por suas origens e objetivos, provêm visões em ângulos distintos sobre o tema, possibilitando através de suas concordâncias ou contrastes identificar possíveis entendimentos ou soluções para o conflito inicialmente identificado.
Neste estudo me apoiei em dissertações e livros que tratam do texto em questão, e de forma complementar outros materiais semelhantes que ajudam a detalhar conceitos e diretrizes inerentes à filosofia e prática do Yoga.
Em relação especificamente aos Yoga Sutras, localizei quatro fontes que traduzem e discutem o texto e seus significados:
Para referenciar os fundamentos da filosofia da prática e discutir suas perspectivas, inclusive as envolvidas no sutra tema, utilizei o livro Yoga, imortalidade e liberdade, de Mircea Eliade. O autor é historiador das religiões do mundo. Familiarizado com o universo dos símbolos, mitos e ritos, procura sistematicamente a aproximação das filosofias orientais e ocidentais.
Não poderia deixar de referenciar o texto principal da filosofia, o Srimad Bhagavad Gita, para ilustrar os princípios que guiam a busca do praticante em sua jornada.
Com a intenção de entender mais fundamentos do Yoga e suas relações com os Yoga Sutras localizei o trabalho O Yoga do eterno retorno, dissertação de mestrado de Tomaz Pedrosa de Tassis (UFMG). O trabalho expõe os fundamentos da doutrina, baseado no texto milenar e na análise de autores contemporâneos, bem como se aprofunda em técnicas e motivações da prática.
Encontrei também o trabalho Um modo de viver: a ética e a moral do Yoga, dissertação de mestrado de Júlia Ceconi Foletto (UFRGS), que investiga aspectos morais e éticos do yoga à luz da psicologia do desenvolvimento moral. No trabalho são discutidos os fundamentos instituídos por Patañjali, além de ser feita uma pesquisa das influências destes preceitos em um grupo de indivíduos.
Pretendo com o trabalho apresentar informações e referências relevantes para auxiliar na compreensão, e possível dirimição de dúvida, sobre o alerta existente no sutra, bem como produzir orientação para quem inicia o caminho na busca.
Sendo assim, o caminho que pretendi percorrer foi apresentar os Yoga Sutras, sua estrutura e em qual fração dele a frase está situada. Considerando esse contexto, apresentei como cada fonte interpreta o trecho em questão e quais elementos oferecem como apoio à sua compreensão. Por fim, busquei identificar concordâncias ou dissonâncias nestas visões e, quando possível, eventualmente apontei direções para maior aprofundamento.
A imagem de ferramenta de libertação das aflições da existência material associada à prática de Yoga se apresenta em textos referenciados da filosofia, como na tradução analisada de Iyengar, quando descrevendo o método ele afirma logo nas páginas iniciais:
Sādhanā é um meio metódico, sequencial, de atingir os objetivos do sādhaka na vida. Os objetivos do sādhaka são: dever correto (dharma), propósito correto e recursos justos (artha), inclinações corretas (kāma) e liberação última ou emancipação (mokṣa). (IYENGAR, 2002, pg. 5)
Assim, para o praticante que busca a orientação das metas, dos objetivos, a libertação é instruída desde o início e constitui nosso arcabouço de expectativas para o esforço desempenhado.
Confirmando essa perspectiva, Eliade define em seu estudo sobre a filosofia que a ideia de libertação permeia não só o Yoga, mas toda cultura e o sistema de pensamento indiano:
"Libertar-se" do sofrimento é a finalidade de todas as filosofias e de todas as místicas indianas. Quer se obtenha essa liberação diretamente pelo "conhecimento", segundo ensinam, por exemplo, o Vedanta e o Sankhya, ou por meio de técnicas, tal como afirmam, a par do Yoga, a maioria das escolas budistas, o fato é que nenhuma ciência tem valor se não tiver por finalidade a "salvação" do homem. (ELIADE, 2012, pg. 26)
O autor inicia seu estudo a partir daquilo que ele nomeia "equação da existência", direcionando sua atenção precisamente ao sutra 2.15, distribuindo assim os primeiros passos para descortinar a destacada inconsistência entre o caminho de libertação e o desafio da sujeição à dor.
Importante notar que ele considera que mesmo com o peso desta condição, isso não significa a derrocada para um caminho de pessimismo, mas serve como combustível para impulsionar o buscador no enfrentamento do desafio, fazendo da experiência do sofrimento parte do processo para a conquista do objetivo maior:
Contudo, essa dor universal não termina em uma "filosofia pessimista". Nenhuma filosofia, nenhuma "gnose" indiana desemboca no desespero. Pelo contrário, a revelação da "dor" como lei da existência pode ser considerada como a conditio sine qua non da liberação. (ELIADE, 2012, pg. 25)
Ou seja, sofrer será necessário, mas passageiro, apesar das forças presentes serem extremas e condicionantes, e exigir o atingimento de estados supremos de aprimoramento para sua superação, além de ser preciso destacar o contexto metafísico desta vivência. A boa notícia é que cada um tem a possibilidade de alcançar a meta:
Assim, se a condição humana é votada à dor eterna enquanto determinada, como toda condição, pelo karman, cada indivíduo que partilha dessa condição pode ultrapassá-la, pois cada um pode anular as forças kármicas que a dirigem. (ELIADE, 2017, pg. 26)
A menção do sutra de nosso estudo foi feita isoladamente, sem as relações com o contexto em que a frase está inserida, fato relevante para tal estilo de registro, característica que será detalhada logo abaixo quando apresentarei os Yoga Sutras.
Se a liberação é possível, como ela pode se dar, ou em que âmbito pode ocorrer, permitindo assim o encerramento da inevitabilidade do sofrimento? Eliade define o momento e o âmbito quando analisa a concepção desta liberação pelas escolas filosóficas originárias:
O sofrimento se extingue desde que compreendamos que ele é exterior ao espírito, que ele não diz respeito senão à "personalidade" humana (asmita). Imaginemos a vida de um "liberto". Ele continua a agir, pois as potências de suas existências anteriores, assim como as da própria existência atual antes do "despertar", exigem atualização e extinção, conforme a lei do karma. (ELIADE, 2017, pg. 42)
A pessoa "liberta em vida" não experimenta mais uma consciência pessoal — aquela alimentada por sua história particular —, mas uma consciência testemunha, formada de pura lucidez e espontaneidade. (ELIADE, 2017, pg. 298)
Localizei também uma definição do sistema Yoga que corrobora esta visão de libertação. Em seu trabalho sobre os conceitos de tempo e eternidade na tradição do Yoga Clássico, bem como das relações da existência no mundo material com os aspectos do sofrimento, o autor nos escreve que "os YS atestam ser um manual (anuśāsana) para aqueles que anseiam transcender a vida terrena e o sofrimento que lhe é inerente (duḥkha)." (TASSIS, 2018, pg. 18).
Com algumas origens da percepção da possibilidade de libertação identificadas, se faz necessário adentrar os Yoga Sutras para localizar elementos que corroborem esta expectativa, conciliem suas visões, ou então demonstrem o equívoco destas afirmações encontradas.
Os Yoga Sutras, compêndio sobre yoga atribuído ao sábio Patañjali, registra os princípios da prática, sem se apresentar como um manual, detalhando métodos e execuções, mas delineando objetivos, perspectivas, definindo assim um caminho para o exercício cotidiano desta filosofia milenar.
Registrado em sânscrito, era representado através de sutras que permitiam na antiga tradução oral sua memorização mais fiel e facilitada. A raiz da palavra sutra está associada a costura, sendo então como frases ou ideias costuradas formando "um tecido" do conhecimento descrito.
Sendo assim, devemos cuidar para não considerá-los como simples aforismos, maneira como comumente são descritos, pois bem nos alerta Barbosa, estes últimos são sentenças breves e conceituosas, máximas, provérbios. Já os sutras são bem caracterizados pelo autor como segue:
Muitos estudiosos chamam os Sutras de "Aforismos de Patanjali". No entanto, o aforismo é uma sentença que resume um ensinamento por si mesmo, sem a necessidade do apoio de outras sentenças.
O caráter encadeado dos Sutras, porém, que torna cada frase totalmente dependente das anteriores, afasta a possibilidade de atribuirmos um caráter aforismático a este texto doutrinário do Yoga. (BARBOSA, 2015, pg. 32)
Desta forma, devemos localizar o contexto da sentença tema deste trabalho, procurando delimitar o trecho suficiente para ilustrar a compreensão do conceito discutido. Tal localização requer saber exatamente em qual local do texto o trecho se encontra e qual papel desempenha no desenvolvimento da lógica apresentada.
Organizado em quatro capítulos, o texto busca construir um caminho para a regulação da prática, dispondo seus princípios de maneira construtiva, encadeando gradativamente o desenvolvimento de seus conceitos. As partes (ou padas) mencionadas são Samadhi, Sadhana, Vibhuti e Kaivalyam.
Na descrição destas partes componentes já encontrei distinções no enfoque dado por cada tradutor, ou mesmo no destaque para apresentar o objetivo de cada seção, situação esperada haja visto suas origens heterogêneas e certamente suas vivências particulares.
Arieira nomeia os capítulos intitulandos como O Objetivo, O Meio, As Conquistas e A Liberação, respectivamente, explanando no início de cada qual as linhas gerais que conduzirão a narrativa, para só então apresentar cada sutra com sua tradução, ilustrada por comentários.
Da mesma forma, Gulmini nomeia as partes de acordo com sua concepção, dando-lhes os nomes Sobre a Integração, Sobre os Meios de Realização, Sobre os Poderes Envolvidos e Sobre o Isolamento absoluto, respectivamente, também utilizando o início de cada seção para apresentar o conteúdo intitulado.
Já no texto de Barbosa ele utiliza as seções introdutórias para descrever as partes componentes dos Yoga Sutras na página 32 do seu livro, fazendo uso de alguns parágrafos que sintetizam o conteúdo de cada parte, sem utilizar uma nomeação própria para cada capítulo.
Por fim, Iyengar escreveu quatro capítulos introdutórios para contextualizar cada seção do texto original, para posteriormente, em outros quatro capítulos, apresentar os sutras e as respectivas traduções com os comentários adicionais, ilustrando e aprofundando o entendimento sobre as ideias registradas ali.
Seja pela escolha dos títulos, ou pela forma como descrevem as seções abordadas, podemos notar o enfoque diferente concedido por cada autor, apesar de versarem sobre o mesmo tema, em alguns casos de maneira mais prática, em outros estendendo visões de suas tradições filosóficas ou religiosas.
Por exemplo, a respeito da terceira parte, Arieira escreve:
Os capítulos 3 e 4 são herméticos, difíceis de serem entendidos. As traduções e explicações aqui apresentadas são uma tentativa de conectar esses sutras à tradição do Advaita Vedanta.
No terceiro capítulo, Sri Patanjali trata dos três últimos angas, ou membros, do Yoga. Dharana, concentração; dhyana, meditação; e samadhi, absorção, são juntos chamados de samyama. Os três constituem o processo natural de meditação, que deve ser praticado diariamente como uma das práticas essenciais de uma vida de Yoga. (ARIEIRA, 2017, pg. 169)
Por outro lado, Barbosa trata de maneira mais sucinta a descrição, colocando de maneira prática e direta o que aguarda o leitor:
Os três últimos componentes do Yoga, que constituem a meditação do Yoga (Samyama), são descritos no início do terceiro capítulo e tratam essencialmente da transformação da mente pela prática da meditação e dos resultados que se pode obter com ela. No fim deste capítulo, há uma reflexão sobre o discernimento que permite distinguir entre o essencial e o espiritual. (BARBOSA, 2015, pg. 32-33)
Ainda assim, é possível perceber que se tratam de análises do mesmo conteúdo, afinal as quatro principais fontes deste trabalho se compõem de traduções do mesmo texto em sânscrito, oriundas de origem e influências distintas, mas sempre respeitando as mesmas divisões e organização da obra original.
No caso de nosso trabalho o sutra está contido no segundo capítulo do texto, Sadhana Pada. A palavra que intitula o capítulo já ilustra os objetivos das ideias contidas ali, afinal para todo yogi sadhana representa sua prática diária, bem como um processo pessoal, ou seja, Patañjali propõe as primeiras ferramentas para deixarmos as aflições e alcançarmos o estado de samadhi, introduzido no primeiro capítulo.
Composto por 55 sutras, o capítulo alvo inicia com os 11 primeiros descrevendo o que é o estado de samadhi e quais são as perturbações / aflições que podem nos acometer, com suas devidas causas, concluindo com a apresentação da solução, a meditação.
Nos 4 seguintes, onde se inclui o sutra tema deste trabalho, são relatadas as fontes deste ciclo, com as constatações de suas relações com o processo. Esse é o conjunto do qual deveremos realizar a comparação para tentar elucidar mais o sentido do último sutra deste conjunto. O trecho referido, no original em sânscrito, é transcrito em IAST, como segue:
12 kleśamūlaḥ karmāśayaḥ dṛṣṭa adṛṣṭa janma vedanīyaḥ 13 sati mūle tadvipākaḥ jāti āyuḥ bhogāḥ 14 te hlāda paritāpa phalāḥ puṇya apuṇya hetutvāt 15 pariṇāma tāpa saṁskāra duḥkhaiḥ guṇavṛtti virodhāt ca duḥkham eva sarvaṁ vivekinaḥ (IYENGAR, 2015, pg. 149)
Os 14 sutras seguintes descrevem do que nos devemos guardar, com as causas e consequências de cada aflição. Por fim, nos últimos 26 sutras são apresentadas as práticas mais externas do Yoga como parte da solução, dispostas em estrutura bem definida, construindo uma base sólida para enfrentar o desafio da existência.
Em seu texto, Barbosa apresenta a seguinte tradução para os sutras estudados:
12. O recipiente do karma é a raiz das perturbações e deve ser percebido como a origem do visível e do invisível.
13. Nessa raiz da realidade, o amadurecimento é nascimento, duração da vida e desfrute.
14. Eles são os frutos do prazer, ou do arrependimento, conforme provenham das ações virtuosas ou das ações viciosas.
15. Também por causa do conflito das atividades dos gunas com as transformações naturais, com a purificação, com os costumes e com o sofrimento, tudo é sofrimento para quem tem discernimento. (BARBOSA, 2015, pg. 83-85)
Adicionalmente, o autor inclui alguns complementos textuais (não reproduzidos acima) para aprimorar a compreensão sobre seus significados. Porém ele pouco desenvolve sobre a questão do sofrimento, assim como o texto original, apenas permitindo notar que a afirmação decorre como consequência de outros fatores.
Devo destacar a nota feita por Barbosa para explicitar a palavra original traduzida como discernimento, bem como o sentido aplicado a ela no contexto da obra:
Sutra II, 15. Viveka é o discernimento que nos permite distinguir objetos e conceitos que tenham naturezas diferentes. O discernimento, no entanto, pode nos levar a uma visão pessimista acerca do mundo. O otimismo de Patanjali nos orienta a procurar o modo de vida que destrói o sofrimento. (BARBOSA, 2015, pg. 85)
Observei assim que o discernimento interpretado aqui se contextualiza em algo bem específico. Além disso, o condicionamento ao sofrimento é colocado de maneira opcional, afinal ele "pode nos levar a uma visão pessimista", o que não necessariamente é algo determinante.
Porém, não identifico o mesmo detalhamento no texto para o significado de sofrimento, ou suas implicações e relações causais com os outros elementos da filosofia ou da prática, impedindo a exploração de um ângulo diferenciado à interpretação realizada.
Ainda no mesmo capítulo, no sutra 26, aparece uma afirmação que reforça o nosso incômodo sobre a relação colocada entre discernimento e sofrimento. Barbosa comenta este sutra, nos dizendo que "este Sutra afirma que o discernimento é o coração do método do Yoga, pois cria as condições corretas para o Kaivalya." (BARBOSA, 2015, pg. 89).
Ora, se o coração do método é o discernimento, ou a sua obtenção, segundo o autor isso equivaleria a, em última instância, estarmos buscando o sofrimento, como consequência da afirmação do sutra 15 deste capítulo, caso a relação fosse determinística e inescapável.
Vale ressaltar também a forma quase criptográfica da apresentação dos sutras pelo autor, sugerindo certa contaminação de seu estilo pelo estilo original do texto traduzido. Mesmo com seus textos introdutórios e as notas ao longo da tradução, Barbosa não esgota significados, não estende sua discussão, legando boa parte do entendimento à nossa capacidade de interpretação e nosso arcabouço de conhecimento específico e vivência.
Arieira traz em sua versão do trecho, objetivo de nosso estudo, como segue:
12. O reservatório de karma tem raiz nos klesas e deve ser vivenciado neste e nos nascimentos futuros.
13. Enquanto existir a raiz, haverá a manifestação daqueles (karmas), [determinando] o nascimento, a longevidade e as experiências.
14. Esses são os resultados — satisfação ou sofrimento —, pois são causados por mérito e demérito.
15. Para a pessoa dotada de discriminação, tudo é definitivamente sofrimento, devido ao sofrimento que tem origem na tendência à ansiedade e natureza de constante mudança; e devido à oposição na expressão dos gunas. (ARIEIRA, 2017, pg. 113-116)
A autora explora mais detalhadamente o aspecto do sofrimento, interpretando a sua causalidade como implicação do apego ao desfrute da satisfação. O sofrimento em si já nos desagrada, mas as experiências de satisfação produzem a angústia pelo seu término, pois certamente cessarão de acordo com a temporalidade da existência.
Tal noção de ciclo entre experiências fica claro quando ela escreve:
Seja um sofrimento no início da experiência pela dificuldade de concretizá-la, ou, mesmo que no início haja prazer, um sofrimento no final, devido ao término da experiência prazerosa ou porque, no processo, a pessoa se cansou e perdeu o interesse.
Como tudo está em constante mudança, sempre há ansiedade com mudanças indesejáveis, e um certo sofrimento surgindo da oposição natural dos gunas, as qualidades da natureza. (ARIEIRA, 2017, pg. 116-117)
Vale notar que, neste caso, o que é mencionado é um certo sofrimento — não um sofrimento absoluto, definitivo e inescapável —, o que deixa espaço para a esperança de alguma solução para evitá-lo, a perspectiva de algum caminho para contorná-lo, ou ao menos a possibilidade de que ele seja minimizado, sem que produza a derrocada de todo esforço na construção de uma visão mais elevada.
Destaca-se a atenção dispensada por Arieira em ilustrar sua tradução com referências aos outros textos fundamentais, o Bhagavad Gita e os Vedas, demonstrando como os conceitos perpassam e interligam as principais fontes desta escola filosófica.
É bem verdade que as menções e digressões por outras fontes desviam a atenção do caminho principal, mas a análise cuidadosa deste conjunto de referências enriquece o entendimento, contribuindo para a ampliação do cenário registrado pelos sutras, ampliando o escopo de elementos de acesso ao seu contexto cultural e filosófico.
Em uma referência ao Bhagavad Gita, através de um texto mencionado pela autora, é possível compreender que a discussão se concentra nos aspectos da natureza material e assim não nos condena ao sofrimento em qualquer âmbito da existência:
Os contatos dos sentidos com os objetos trazem frio, calor, alegria e tristeza, são de curta duração e impermanentes, ó Kauteya, Arjuna. Ó Bharata, Arjuna, tenha tolerância com eles. (ARIEIRA, 2017, pg. 119)
É certo que Arjuna em sua condição e sua época possuía mais habilitação para lidar com o impermanente, distingui-lo daquilo que importa, e assim conseguir lidar, tolerar, as agruras da natureza material. Ainda que infinitamente menos capazes, podemos almejar o mesmo objetivo, mesmo sem alcançá-lo, mas sabendo que há uma maneira para atingi-lo.
O alerta é bem explícito nos comentários da autora, quando tratando do trabalho para o discernimento, ela nos diz:
O maior obstáculo ao conhecimento claro é, sem dúvida, a ignorância que só poderá ser removida por seu oposto, o conhecimento. Mas não é tão simples quanto pode parecer, pois a mente tem que estar preparada — deve ser capaz de focar, de analisar de forma imparcial e corrigir a antiga orientação de identidade do Eu, construída a partir da ignorância e da confusão sobre si mesmo. (ARIEIRA, 2017, pg. 135)
Em sua discussão do sutra 2.25, Arieira menciona a eliminação do sofrimento, associando-o até mesmo ao kleśa, traduzindo-o de forma a trazer uma nuance diferente para a compreensão de seu significado:
Foi dito antes que klesha, o sofrimento, e sua causa, a ignorância, devem ser eliminados — heya. Hana é a eliminação do sofrimento e de sua causa; é a libertação do sujeito. Isso ocorre apenas pela eliminação da percepção equivocada. (ARIEIRA, 2017, pg. 133)
Mais relevante ainda, porém, é o fato de que sua afirmação não coloca o sofrimento de forma inevitável, como condenação àqueles que alcançam compreensão, mas como uma possibilidade que deve e será combatida com o empenho fundamentado na adoção integral da prática do Yoga.
Nesta interpretação dos Yoga Sutras, o autor utiliza uma abordagem interessante para discorrer sobre cada parte do texto, em dois momentos. Primeiro apresentando sequencialmente o que ele nomeia como "temas" dos quatro padas, uma análise do conteúdo de cada um daqueles trechos. Posteriormente, depois de analisar todo conjunto desta maneira, ele realiza a tradução propriamente dita, abordando cada parte na sua ordem, detalhando cada sutra e seu contexto.
Desta forma, significativo ganho de compreensão pode ser alcançado, pois o panorama mais amplo do sentido do texto é demonstrado, apontando direções pelas quais o tecido das ideias será tramado. Por exemplo, a perspectiva geral da condução do sadhana pada é bem caracterizado quando ele escreve:
Ele nos guia através de nossas fraquezas até a emancipação através da prática devota da yoga. Esse capítulo, que pode ser felizmente seguido para o benefício espiritual por qualquer um, é seu presente para a humanidade. (IYENGAR, 2002, pg. 42)
Fica assim clara a motivação do trecho onde o sutra deste estudo está inserido, um guia para libertação de nossas fraquezas, acessível para qualquer indivíduo que busca o aprimoramento. Logo abaixo, é possível também identificar a ideia de libertação do sofrimento, mote do questionamento que origina meu estudo, quando o autor nos diz que "quando esses três aspectos da kriyāyoga são seguidos com zelo e sinceridade, os sofrimentos da vida são superados e o samādhi é experienciado." (IYENGAR, 2002, pg. 42).
É muito claro a menção da possibilidade de superar os sofrimentos da vida, permitindo ter esperança que ainda que estes permeiem toda a existência, o empenho sincero e dedicado é capaz de eximir o indivíduo do que poderia parecer uma sentença inescapável.
A seção seguinte, no seu primeiro parágrafo já concede luz ao entendimento acerca do sofrimento, associando-o aos kleśas, também conhecidos como aflições, inerentes à experiência do mundo material:
Os kleśas (sofrimentos ou aflições) têm cinco causas: ignorância, ou falta de sabedoria e entendimento (avidyā); orgulho ou egoísmo (asmitā); apego (rāga); aversão (dveṣa) e medo da morte e apego à vida (abhiniveśa). (IYENGAR, 2002, pg. 42)
Sendo assim, as armadilhas deste mundo é que provocarão o desafio e caberá ao praticante seguir as orientações dos mestres, assim como enuncia o autor na seção "Como minimizar as aflições", orientando que existe a possibilidade de escapar de um destino indesejável, afinal "Patañjali aconselha a imparcialidade em relação aos prazeres e dores e recomenda a prática de meditação para alcançar a liberdade e a beatitude." (IYENGAR, 2002, pg. 43).
Então, depois de apresentar a visão mais ampla deste pada, no capítulo destinado a trabalhar na interpretação de sutra a sutra, o professor Iyengar verte para nossa contemporaneidade o texto ancestral com toda sua propriedade e influência cultural:
12. As impressões acumuladas das vidas passadas, enraizadas nas aflições, serão experimentadas na vida presente e nas futuras.
13. Enquanto a raiz das ações existir, ela fará surgir a classe de nascimento, a duração da vida e as experiências.
14. De acordo com nossas ações boas, más ou combinadas, a qualidade da nossa vida, sua duração, e a natureza do nascimento são experienciadas como prazerosas ou dolorosas.
15. O homem sábio sabe que devido às flutuações, as qualidades da natureza e as impressões subliminares, mesmo as experiências prazerosas são tingidas com angústia, mantendo-se afastado delas. (IYENGAR, 2002, pg. 149-153)
Observo que em sua tradução não há menção da palavra sofrimento, mas ele utiliza a expressão "angústia", claramente associada às aflições, bem como não utiliza a palavra discernimento, mas localiza a ação no "homem sábio" que conhece — ou seja, que distingue — a natureza do que observa.
Dentro desta discussão das aflições, nos primeiros sutras desta seção, ele já sinalizou que devemos prestar muita atenção neste assunto para poder eliminar tal angústia, deixando claro inclusive que isso é um objetivo alcançável:
O sādhaka deve aprender a localizar as fontes das aflições para poder cortá-las pela raiz através de seus princípios e disciplinas iogues (ver I.8, viparyaya). (IYENGAR, 2002, pg. 143)
Assim, ao enfatizar a aflição como tema do combate na busca, além de definir mais os alertas, quais são os desafios, é possível notar que a discussão está voltada às metas e conquistas da vida espiritual, em purusa, e não no mundo material:
As aflições sutis começam com o apego à vida, movem-se na ordem reversa, contrária à evolução espiritual de II.3 e terminam com a aflição grosseira, a ignorância. As aflições sutis devem ser superadas antes que elas conduzam a um problema pior. (IYENGAR, 2002, pg. 148)
Com o direcionamento construído, com relação às aflições, e as soluções propostas com a prática, aliados à discussão mais detalhada e aderente aos preceitos da filosofia, o sutra em questão ganha harmonia com as expectativas mais usuais dos praticantes.
A autora agrupa os sutras ao longo de sua tradução construindo grupos cujo significado compõem uma unidade de pensamento, mapeando para o leitor a conexão de conceitos mais complexos e apresentando um fluxo mais didático do discurso para a compreensão.
Além desta abordagem na organização, ela ilustra os conceitos com referências de outros textos pertencentes ao mesmo contexto cultural e filosófico, esclarecendo ricamente os aspectos abordados, seus papeis, suas interconexões e consequências.
No início de sadhana pada, ela anuncia a possibilidade de libertação, relacionando a ação do praticante com a prevenção das aflições, nos dizendo que "Patañjali inicia a exposição delineando a disciplina necessária para que o yogin consiga vencer as chamadas 'aflições', klesha." (GULMINI, 2002, pg. 213).
E mais à frente, no mesmo parágrafo, ela associa as aflições ao estado de experiência da natureza material, próprios da condição do estado da consciência em sua realização como indivíduo:
... assim também são denominadas "aflições" as causas mais sutis e "poderosas" que geram e suportam estes movimentos, responsáveis pela própria permanência da consciência em estado de aprisionamento. (GULMINI, 2002, pg. 213)
Ela nos aponta e confirma que a busca do yogin é o discernimento, bem como o relaciona à principal das aflições, avidya, como efeito da perda do controle sobre essa capacidade desejada:
O yogin procura este saber especial, viveka, que só se manifesta com o silêncio da consciência, com vistas a erradicar seu estado de ignorância. Mas, com a manifestação ou movimento da consciência, esta discriminação se perde, e nasce a "ignorância", avidya. (GULMINI, 2002, pg. 213)
Então, se chega ao conjunto de sutras tema deste trabalho, onde Gulmini produz a seguinte tradução:
12. O depósito das ações, enraizado nas aflições, deve ser vivenciado no nascimento visto e nos não-vistos.
13. Estando assim enraizada, tal maturação dos frutos das ações determina: condição de nascimento, duração e experiência de vida.
14. Estas possuem os frutos do deleite e do tormento, conforme sejam causadas pela virtude ou pelo vício.
15. Devido às dores causadas pelas impressões latentes e ao sofrimento decorrente das transformações, e em face da contrariedade dos movimentos dos aspectos fenomênicos, os sábios perspicazes podem constatar que, de fato, tudo é dor. (GULMINI, 2002, pg. 225)
Aqui a palavra utilizada não é sofrimento, mas dor. No entanto, ao desenvolver a análise do trecho, a menção à dor não aparece. No lugar, ao que parece, são discutidas as aflições humanas, procurando discorrer sobre o mecanismo das encarnações desencadeado por elas. Uma perspectiva diferente sobre o tema dos sutras aqui agrupados.
Posteriormente, quase ao encerrar a discussão do conjunto, a autora associa o sofrimento ao esforço para lidar com o mecanismo mencionado, porém ainda concede esperança uma vez que sugere que a condição ocorrerá ao menos em suas etapas iniciais, ou seja, não é permanente e será superada com o aprimoramento do indivíduo:
Aquele que conhece os mecanismos de funcionamento de sua própria consciência adquire o poder de agir sobre ela, e de compreender suas respostas. Entretanto, o saber capaz de produzir este poder de controle sobre a consciência exige muito trabalho até ser alcançado e ao longo deste processo — ao menos em suas etapas iniciais — o yogin enfrentará muito sofrimento: "reações" contrárias das próprias impressões latentes, que se opõem ao que se tenta fazer — dominar e extingui-las. (GULMINI, 2002, pg. 235-236)
Ela então encerra apresentando o sofrimento e a necessidade de libertação lado a lado, definindo a coexistência destes dois fatores na vida do praticante:
As transformações fenomênicas opõem-se à imutabilidade do ser incondicionado, e causam, por um lado, o "encantamento" fenomênico que gera a experiência de vida, e, por outro lado, o "desencantamento" que mostra, finalmente, seu sofrimento oculto e a necessidade da busca da liberação. (GULMINI, 2002, pg. 237)
Entretanto, apesar de sugerir encaminhar alguma solução, ou aprofundamento nos aspectos do sofrimento, sua menção à causalidade entre discernimento e dor é apenas uma afirmação de constatação do que Patañjali descreveu, sem avançar na discussão ou oferecer outras referências que possam elucidar o sentido ou sua conciliação com o conjunto de ideias anteriormente exposto:
No entanto, a conclusão de Patañjali nestes enunciados do Yogasūtra é a de que, em virtude destes mecanismos condicionados e condicionadores que regem as experiências fenomênicas, "os sábios perspicazes podem constatar que, de fato, tudo é dor." (Cf. YS 2.15). (GULMINI, 2002, pg. 236)
Sendo assim, mesmo com um detalhamento maior no texto, ainda que com a apresentação de mais elementos para compor a contextualização das ideias, permanece a indefinição da relação entre dor e discernimento, ou ao menos as direções apontadas não encaminham respostas aderentes ao questionamento iniciado neste trabalho.
Explorar a leitura de diferentes interpretações pode melhorar ilustrar o sentido do sutra que despertou o questionamento, mas também mostra como a expressão deste sentido está revestida de muitas camadas. Cada autor traz sua experiência e cultura para a visão acerca do texto, o que não poderia esperar ser diferente, mas é interessante constatar.
Em nenhum dos casos a afirmação, a condenação ao sofrimento, sugerida em um primeiro contato, parece se confirmar, principalmente se levarmos em conta as outras tramas, outras costuras cerzidas pelos sutras associados que compõem o tecido do texto ancestral.
Nem tampouco a discussão desta relação entre discernimento e sofrimento se mostrou como um foco central das interpretações aqui encontradas. Talvez não se destaque para estes autores em meio aos tantos outros aspectos presentes nos Yoga Sutras, ou então a questão já seja bem clara para eles por sua vivência e aprofundamento.
Também é notável a diferença produzida no esclarecimento em cada abordagem, ora por traduções mais sucintas, quase sutras em outra língua, ora pelo discorrer mais longamente e de maneira mais didática sobre o texto em questão. Cada qual tem seu valor, sua parcela em contribuir na provocação de questionamentos distintos e enriquecedores que complementam os matizes desta escola milenar.
A discussão não está no âmbito do mundo material, outra confusão constante produzida pela nossa impressão por estarmos nele inseridos, mas tem como meta um objeto transcendente, por isso menos acessível à nossa compreensão e nem por isso desmerecedor de nossa atenção e intenção.
No meu entendimento o sutra tema do trabalho mostra que para quem alcança o discernimento é perceptível que todos os elementos do mundo material podem ser causa de sofrimento, tudo dependerá de o quanto preparados estaremos para lidar com a existência. Este trabalho não se encerra nas amostras analisadas e novas fontes certamente contribuirão para nosso preparo e daqueles que se aventuram pelo caminho do Yoga.
É provável que o incômodo gerado pelo contato com o sutra, que originou a motivação para realizar o trabalho apresentado aqui, seja uma parte do sofrimento descrito, mas então será mais fácil aceitar a condenação, afinal ela se comprovou um excelente motor na busca de aprofundamento e aprimoramento no caminho da prática.
ARIEIRA, G. O yoga que conduz à plenitude – O Yoga Sutras de Patanjali, 2017
BARBOSA, C. E. G. Os Yoga Sutras de Patanjali, 2015
ELIADE, M. Yoga, imortalidade e liberdade. Palas Athena, 2012
FOLETTO, J. C. Um modo de viver: a ética e a moral do Yoga. Dissertação (mestrado) Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Psicologia, 2019
GULMINI, L. C. O Yogasūtra, de Patanjali – Tradução e análise da obra, à luz de seus fundamentos contextuais, intertextuais e linguísticos. Dissertação (mestrado) Universidade de São Paulo – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 2002
IYENGAR, B. K. S. Luz sobre os Yoga Sutras de Patanjali, 2002
MAHARAJ, S. B. V. T. Srimad Bhagavad-gita – O Tesouro Oculto do Doce Absoluto, 2017
TASSIS, T. P. O Yoga do eterno retorno: Tempo e eternidade na tradição do yoga clássico. Dissertação (mestrado) Universidade Federal de Minas Gerais – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2018